Não sou educada quando o assunto é assédio

[Sakura Animes]_NANA_46.rmvb_snapshot_14.06_[2012.11.23_00.45.16]
Cantadas…ah cantadas. Diz a sabedoria popular que quando uma mulher está com a autoestima baixa, se sentindo feia e indesejável o melhor remédio para recuperar seu ego/vontade de viver é passando em uma construção ou em um bar cheio. Ao ouvir tantos “elogios” não tem mulher que não se sinta mais feminina depois de uma boa cantada de pedreiro. Agora, se você mulher, passar em uma obra e ninguém te der um fiu-fiu, adeus vida. Se mate, você não tem mais salvação. Supostamente o ego feminino depende e muito da aprovação masculina, ainda mais (ou melhor ainda) se vier de um desconhecido, como entender então essas mulheres chatas (aposto que devem ser feministas) que não gostam de receber cantadas e pior ainda, são contra elas! Que mundo é esse?
Esse mundo meu coleguito é o mesmíssimo mundo onde nós mulheres somos agredidas diariamente, ensinadas a sermos recatadas, moças de família e ao mesmo tempo a mídia (e não somente ela) nos incentiva a sermos objetos de desejo e que nosso valor depende de duas coisas: se os homens desejam nos devorar e se as outras mulheres nos invejarão por isso.Cantadas não são elogios, são exercícios de dominação. Homens cantam, mulheres são cantadas, homens não se envergonham, mulherem não gostam. Eu sei que vivemos em um mundo de homens no sentido de que tanto o espaço público quanto o corpo feminino pertencem ao homem de forma exclusiva e contra a nossa vontade. A cantada, eufemismo para assédio, é uma forma grosseira de dizer: “ei ,estou aqui”, “eu te vi, e gostei”, “você foi notada e tem que gostar”. Sim é tem que gostar porque a maioria dos homens não liga para a opinião das mulheres sobre isso. Nós temos que aceitar e pronto, acabou. Imagina que ousadia rejeitar uma cantada? Você mulher, pegando o boi que o cara te notou e você não é tão belezinha assim, tem mais é que ficar GRATA com a aprovação. Aliás, eis outro ponto sobre assédio: por que caralhos estou sendo aprovada se não me coloquei á aprovação de ninguém? Eu não dei permissão alguma para gritarem nojentices ou destacarem partes do meu corpo. Eu quero que você se foda e cale sua boca. É tão difícil?

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Mas se acabarem as cantadas, como mulheres e homens vão se relacionar? Vocês querem acabar com a paquera!!?
A resposta da primeira pergunta é fácil : se acabarem as cantadas, sua vida homem não vai mudar. Simples assim. Ninguém abre a boca e grita “gostosa!” para uma estranha que vê rapidamente na rua e espera que isso seja o início da história de amor com a futura mãe dos seus filhos. Perturbar mulheres na rua que você sequer tem a intenção de ver de novo (até porque você nem vai lembrar do ocorrido daqui a alguns minutos) não tem nada a ver com conquista ou desejo. Você só está exercendo seu estúpido direito de mijar no território e avisar as fêmeas que você está passando e que elas sim, deverão se lembrar de você, o babaca que passou e tocou nelas ou sussurrou algo. Sua vida não depende disso. Agora para nós mulheres, isso muda muita coisa. Mulher não é bicho que você cutuca para ver a reação e ri disso. Nem os bichos merecem, imagina nós, que vocês homens dizem amar tanto e não viver sem, mas nos chamam de putas/vagabundas na primeira oportunidade. Nos deixar em paz é uma questão de respeito. É muito chato andar na rua e aguentar ouvir tanta merda, todo o dia, a vida toda! Isso cansa! “Ai, mas eu só chamei de linda!”, ninguém quer saber a sua opinião. Nem a linda anônima que está de passagem e que você vai viver muito bem sem.
Sobre a paquera, sabe paquera envolve duas partes. Mesmo que a pessoa não te queira, ela dará o mínimo de atenção para sair de cena depois. Certamente uma mulher atravessando a rua com pressa não tem a intenção de entrar em algum joguinho de sedução. Apenas melhore. Mas tem mulher que gosta! Abra um pouco sua cabeça e vai perceber que a maioria não gosta. Segundo, como saber que a fulana ali gosta? Mas entra de novo a questão de se apropriar do corpo feminino: você não tá defendendo cantar a mulher que gosta disso, você tá defendendo o direito de cruzar a linha entre desconhecidos e opinar, independente do consentimento alheio. Se um gay cantar você duvido que não iria achar um desrespeito! Deve ser terrível ser tratado do modo como os homens tratam as mulheres né?
Ela só ficou com raiva porque sou feio, se fosse bonito e rico… Ai que ousadia! Então quer dizer que você tá certo em não deixar uma bonitona passar de graça, mas ela tem que gostar de você, que deve ser feio? Lógica cadê? E não ache que está fazendo um favor mexendo com as feias, elas ficam com nojo tanto quanto as lindonas. Rico? Olha, eu queria entender por que o perfil bonito e rico habita mais o imaginário duzomi do que de nós mulheres.

Falando em nós, o que fazer? Reagir ou não?

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Infelizmente reagir a um assédio pode ser perigoso. Porque mexe com o frágil ego masculino. Eles são incentivados a dominar, invadir, validar seus espaços, e não lidam bem com a negação de mulheres, esses seres que foram criados para entretê-los (ai eu sou omi e não sou assim, para de generali... morra amigo apenas morra). Mas eu recomendo que devemos reagir sim, sempre. Chega, já somos diminuídas demais em um mundo patriarcal. O assédio é um dos mecanismos que garantem a manutenção da ordem das coisas: homens falam e mulheres calam. Devemos lutar contra isso. Não podemos continuar duvidando da nossa força ou palavra. Ou adotando o velho “deixa pra lá”.
Falando da minha experiência de vida, durante toda a minha existência nunca havia reagido a um assédio. Porque era da opinião de que reagir é o mesmo que dar corda e era mais fácil deixar pra lá. Homens são assim mesmo, não é nada demais, eu é que vou me estressar, não vale a pena…blá,blá,blá. Eu entendo que muitas mulheres prefiram fugir do confronto. É fácil, né? Mas como feminista, eu comecei a me cobrar internamente sobre essa minha postura. E tomando cada vez mais consciência do quão somos oprimidas e caladas, o quanto a questão do assédio é algo sim reprovável e não apenas frescura das mulheres, resolvi que deveria arriscar e começar a revidar sim. Não posso criticar o mundo e querer mudá-lo sem me expor. Não ajudaria ninguém, nem as mulheres e muito menos a mim mesma.E eu, pessoa que detesta gente, super antissocial,e totalmente retraída com estranhos, responder uma cantada idiota é algo muito grande. Eu adoraria ser aquelas mulheres que respondem no ato e gritam e mandar a pessoa se fuder e continuam seu caminho. Só que tenho sérias limitações. Mas em nome das causas que luto faz alguns meses que decidi abrir fogo contra essas idiotices.

Me mudei de casa faz uns cincos anos. Desde que cheguei no bairro novo, aturava todo o tipo de nojentice dos meus vizinhos. Em nome de quê? Da boa e velha educação, da passividade e docilidade o qual fui criada para ter. Era o que esses bostas aqui queriam. Eu, uma boba. Toda vez que abria o portão de casa os beberrões desocupados voavam pra cima e falavam obscenidades. E nem precisavam estar bêbados, na maioria das vezes estavam bons mesmos. E mexiam, e encaravam e algumas vezes passavam a mão no meu cabelo. Eu me sentia enojada e muito puta de raiva. Desejava uma morte lenta e dolorosa para eles todos os dias quando metia a cara na rua.O assédio se manifestava de formas diferentes: ás vezes eu saía, e o cara me dava um educado bom dia, no dia seguinte o mesmo já puxava conversa e ia me seguindo, com um tom malicioso. Eu burra, sempre era educadinha, afinal e daí se o fulano foi grosseiro comigo naquele dia, hoje ele só deu um bom dia simples, ai, vou dar bom dia tbm! Grande erro! O “bom dia” era quase como uma senha para que já se achassem com a maior intimidade comigo nas outras vezes.

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Sonhava com o dia em que Jigoku Shoujo iria levar aquelas almas para o inferno, mas eu não queria ir junto…

No início do ano eu comecei a refletir o quão inaceitável estava a situação: antes mesmo de sair de casa, eu ja sentia muita raiva, com vontade de chorar de ódio porque eu sabia o que iria encontrar. Na volta a mesma coisa, até que eu chegasse no portão teria que enfrentar aquela horda de desocupados e teria que ao mesmo tempo evitar contato visual e me desviar para não ser tocada. O ódio me consumia por dentro, e acreditem a culpa! Culpa de quê? De desejar o mal para eles, de querer que morressem e assim me ver livre deles. Fui criada em uma família cristã e meu lado católico dizia que não era louvável odiar aquelas pessoas. Eu sempre tentava humanizá-los na minha cabeça, afinal eles não eram os babacas assediadores 24horas por dia, eles tinham família, filhos, e lálálálá…

Eu nem lembro o dia, mas resolvi ligar o foda-se e dizer chega. Não queria saber se isso não era coisa de cristã, se estaria sendo mal educada, se a minha fama de arrogante e metida iria triplicar, se eles tem algum lado bom e sei que devem ter. Sinceramente eu quero que todos se fodam.Porque fui agredida, assediada demais, e já chorei de raiva por dentro tantas e tantas vezes, já deixei de sair quando o movimento da rua estava cheio só pra não ter de ouvir merda e não foi uma vez não. Basta. Eu me recuso a ser educada com quem me assedia. Desculpa sociedade, Deus, Mãe (que quando falei que revido, riu de nervoso, tipo: que coisa feia, filha!),aliás chega de me desculpar! Mudei e toda vez que saía de casa e algum imbecil começava, eu respondia de forma grosseira, com palavrões, com muitos foda-se, vá a merda, e muitos dedos do meio. Hoje o assédio caiu sei lá, uns 300%. Sério, parece exagero, porém meses de reação deram um resultado. Hoje me incomodam muito pouco, ainda dá nojo quando saio e sinto que me comem com olhos, mas pelo menos eles aprenderam a calar mais a boca. Ainda sinto raiva antecipada ao chegar perto do portão, mas é muito estresse acumulado. Trauma mesmo.

Não vou dizer que não tenho medo, tenho consciência que eles me odeiam muito agora por ser uma mulher que não fala com ninguém da vizinhança e nem mesmo dá bom dia. Mas a minha força é maior, eu cansei, ninguém vai me impedir de lutar, eu sei que meu relato é um grãozinho de areia, mas sinto que a vitória não é apenas minha, é de todas as mulheres. Sou grata a esse tal de feminismo que me deu forças para lutar e não me sentir culpada por isso. E como encerrar esse texto que começou com um tom e descambou para outro? Acho que já disse tudo o que tinha pra dizer, desabafei do meu jeito bagunçado, só posso concluir: assédio não é piada, não tem graça e nem deve ser tratado como tal. E mulheres, vamos reagir mais, gritar mais, e pensar menos em manter nossa boa criação. Grosserias cotidianas não merecem o nosso respeito, somos massacradas todos os dias, de diversas formas, não há razão para ter pena de sermos mal educadas com quem não tem empatia por nós. São muitas batalhas perdidas todos os dias, algumas podem ser vencidas por mim, ou você. No final das contas, por todas nós.

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