Garota Exemplar: Crueldade e Misoginia definem.

SPPOILERSSSSSSSS

O texto a seguir é uma reflexão sobre o livro e o filme Garota Exemplar, então não recomendado para quem não leu ou não conhece a história (visto que não estou com paciência para escrever um resumo e coisas do tipo ).

gone-girl-movie-picture-3
Eu literalmente devorei Garota Exemplar em dois dias. Foi uma maratona louca, só consegui largar quando todas páginas foram traçadas. Após vencer minha irritante falta de concentração eu mergulhei de cabeça no livro. A autora, Gillian Flynn, consegue fisgar o leitor de uma forma incrível e o resultado acaba por ser cruel. Não sei dizer se foi bom ou ruim, mas na virada mais espetacular do livro,filme eu me senti ridiculamente enganada. Não me recuperei do baque até hoje. Um misto de raiva e mágoa. Difícil mesmo de digerir. Apesar da raiva eu continuei a devorar loucamente a história e o final foi seco, revoltante e injusto. Depois, decidi que queria ver o filme, mesmo ainda tonta pelo furacão que o livro foi. A adaptação feita por David Fincher (O Homem Que Não Amava as Mulheres, da trilogia Millennium, que apesar de ser adorado por muitas feministas, eu nunca tive interesse de ler/ver) ficou excelente. Sobre a atuação do Ben Afleck (que perdeu a simpatia de meio mundo ao ser o novo Batman, hehe), eu tenho que ser contraditória: sim, gente, ele tem todo o jeitão de sujeito quieto, inespressivo e suspeito de Nick. Por outro lado, acho que um ator mais competente poderia dar um toque a mais no filme. Mas eu gosto do Ben, não dele como futuro morcegão, mas gosto mesmo dele. Já Rosamund Pyke apenas brilhou e muito no filme. Que mulher maravilhosa! Eu nunca havia assistido nada com ela (007zzz, Fúria de Titãszzzz, Orgulho e Preconceito, versão 2005zzz), mas fui fisgada por sua atuação.
Então, passado a tormenta, quando pude recuperar meu folêgo e assentar as ideias, pude decidir que sim, Garota Exemplar é foda. É uma daqueles obras que não te deixam, o livro meio que entra em você, ficamos pensando por dias. Vale arriscar. Porém, a coisa começa a ficar feia, a medida em que Amy vai mostrando sua teia, a misoginia do texto de Gillian Flynn vai ganhando vida. Sem mais, Garota Exemplar usa todos elementos ligados a violência doméstica para moldar Amy e sua vingança. Atentem que o problema não está na loucura ou orgulho de Amy. Mesmo o objetivo de fuder com a vida do marido por pura maldade não é misoginia. Amy é tóxica, doentia, há um histórico disso. Acho ingênuo pensar que em algum momento ela está certa ou é vítima de valores patriarcais. Porque o seu delírio vai além da questão dos relacionamentos e suas complicações. Os detalhes do caminho que Amy traça são muito problemáticos. E só reforçam aquilo que a sociedade diz sobre as mulheres: são traiçoeiras, mentirosas, seres em que não se pode confiar porque vão inventar estupros e acabar com a vida dos caras.

Gone-Girl
Foi muito grosseiro sermos manipulados e levados a simpatizar com uma vítima de uma relação abusiva, para depois ela se revelar uma louca mentirosa de primeira. Amy inventa estupros, usa seu corpo e sexo para conseguir manipular e para fechar com chave de ouro, engravida para segurar o marido. Sabe aquelas coisas que o senso comum jura que acontecem com mais frequência do feminicídios? Estão todas lá. Sem contar que o texto nos faz repensar a questão “a culpa é sempre do marido”. No caso de Nick, não, mas na vida real sabemos que quase sempre é verdade, assim como quase sempre vão culpar a mulher de qualquer jeito. Só que somos os otários que acreditamos no clichê de ‘coitada da esposa’, Flynn deixa isso claro. A própria Amy se delicia com a ideia de ser a pobre esposa agredida e grávida, pois os patetas de plantão sempre se compadecem delas.
Nick é outro personagem interessante nesse aspecto: jura não ter problemas com mulheres, apesar de falar que está cansado de ser sacaneado por elas e só se dá bem com sua gêmea, Go (Carrie Coon). É dito no livro que Go não se considera parte do grupo ‘mulheres’ e sempre se refere a elas de forma pejorativa. O pai deles tem Alzheimer, sempre foi um misógino assumido e vez ou outra Nick resvala traços da misoginia do pai, ainda que não queira se tornar como ele; em um momento de grande pressão ele pensa em todas as piranhas que estão fodendo sua vida (esposa, amante, polícia, apresentadora) e depois reflete: “serei um misógino de uma mulher só” , ah que comovente! Ele é a vítima da história. Aliás, para quem viu o filme, a relação de Nick com o gato é uma pista sobre o caráter do personagem. Sabe aquele história de que pessoas boas gostam de bichos? Pois é, foi uma sacada legal para sutilmente humanizarem o cara que até a metade do filme todo mundo tava odiando.

Sobre o Filme: houveram mudanças (dãããã ÓBVIO), umas boas, outras nem tanto, mas no final se equilibraram muito bem. De antemão, quero dizer que não curti de terem eliminado Betsy, a esposa de Tanner que treina Nick. É ela quem faz o lance com as jujubas, é advogada como o marido e ex-apresentadora de tv. Não gostei mesmo de terem tirado ela. É descrita no livro como alta, negra e deslumbrante (junto de Tanner, eles formam um casal avassalador, como um anúncio da Vogue, Nick os descreve). Foi omitida também Hilary Handy, a ex-amiga e vítima de Amy. O filme preferiu focar apenas nos homens que foram enganados por Amy (onde ela acusa os três de estupro). De personagens femininas detestáveis temos a periguete da selfie. Ela é odiosa, mas tem passagem curta no filme, amém. Noelle, a ‘amiga’ de Amy, cuja vida gira em torno da maternidade, a apresentadora sensacionalista da TV. Eu entendo a parte que critica a mídia e sua fome por desgraça, mas temos uma especialista em feminicídios versus um advogado especialista em defender feminicidas. Adivinhem quem está certo. Greta, a mulher que rouba Amy é uma vítima de violência doméstica, que logo desempatizamos, pois ela não tem caráter e busca a vida que tem. Andy, a menina amante de Nick, tem o bônus clichê de ser aluna dele e pedir desculpas públicamente por se envolver com um homem casado.

cdn.indiewire.com
De ponto mega positivo: Go e a detetive Boney (Kim Dickens). Começando por Boney: no livro, Nick em sua habitual escrotidão fala que ela é muita feia e blá,blá,blá (nenhuma palavra contra o parceiro dela). Bom, ela é antipática e uma chata, implicando com Nick por bobagens. Sabe, imagine você com sua esposa desaparecida, tem uma suposta cena de luta na sala, a polícia chega e a detetive fala de cara que você é um filhinho da mamãe? Caralho. Ela fica repetindo isso e é bem irritante e nada profissional. No filme, a atriz está muito bem no papel, Boney é competente, desconfiada e justa na medida certa. Pressiona e depois apoia Nick muito bem. Ficou redondinha sua participação, por assim dizer. De estranho só o fato dela ser quase onipresente em todos os cantos que Nick está, estando vigiando ele ou não. Mas ok, nada demais.
Agora, Go, o que dizer de Go? Eu demorei muito para gostar de Go no livro, alguém que não gosta de mulheres, ainda que seja uma, perde minha simpatia fácil. No filme, ela é maravilhosa! Go é o ponto de humanidade do filme, o nosso porto seguro, assistimos o filme, odiamos Nick e Amy, mas a gêmea é aquele elemento confuso e sincero no meio daquela loucura toda e nos identificamos com ela. Carrie Coon está de parabéns. O amor pelo irmão, a desconfiança, a angústia de não poder ajudá-lo. Eu queria muito que a piada interna deles: “você ainda me amaria se…” estivesse no filme. No final ela fala que sempre o amaria apesar de Nick ficar com Amy, poderiam ter soltado um gancho legal.
Outro diálogo cruel que ficou fora e eu jurei que fecharia o filme (como fecha o livro): ‘sinto pena de você’. ‘Porquê?’ ‘Porque toda manhã você tem de acordar e ser você’ . Eu esperava que essa frase fechasse o filme, embora o final de Fincher tenha sido digno também. Ele repete a sensação de desesperança que o livro deixa. É aquela coisa: não há nada que possamos fazer. Ninguém poderia.

gone-girl-DF-01826cc_rgb.jpg
E fica minha confissão: eu torci para que Amy morresse. E ainda que minha consciência doesse, eu não acharia injusto se Nick desse um fim nela. Reflitam: Amy é daninha. E tudo na vida é contexto, lógico que eu acho o horror quando maridos matam esposas na ficção ou vida real, aliás eu deixei de ver Revenge quando o Daniel atirou na Emily e fingiu que nada havia acontecido. Mas, depois de entrar na história, me permiti algumas concessões para imaginar e torcer por seu desfecho. Depois que tudo o que Amy fez, sério ela deveria parar em uma daquelas prisões psiquiátricas e não sair nunca mais. Mas essa opção era impossível dado o nível de excelente jogadora de Amy.
Só que a morte da personagem seria catastrófica dentro e fora da trama. Dentro, porque foderia Nick de qualquer jeito. Ela armou muito bem para prendê-lo. Fora, porque engrossaria a lista da misoginia da obra (eu desejar não é o mesmo que ignorar isso), ressaltaria que a vadia teve o que mereceu. Amy tem tudo e todos nas mãos o tempo todo. Sempre está um passo à frente. É o que a personagem tem de mais fantástico e revoltante. Se a autora não tivesse criado tantas iscas machistas eu acharia muito aceitável a morte dela. Pelo óbvio, ela é nociva, inespantável. Nick é um bosta, mas nada justifica pra mim desejar que alguém, homem ou mulher seja refém de uma situação dessas. E o mais louco é que são as próprias armações de Amy que rehumanizam Nick.
No que diz respeito a papéis de gênero, apesar da história pincelar e fazer refletir muitos aspectos de um relacionamento (especialmente o que se espera das mulheres), nenhum justifica a insanidade de Amy. Não tiro o direito de ninguém torcer pela vilã, para que Nick se ferre bonito, afinal ele é um péssimo marido, mas que seja por motivos coerentes. Não acho mesmo que ela foi vítima de convenções de gênero, que por causa disso vai articular uma vingança contra a marido porque ele parou de atender as suas expectativas e ela se sentiu enganada.
Sua maldade, vontade de manipular e ferir quando contrariada, afloram bem antes dela conhecer Nick e nada tem a ver com uma forma de defesa. Amy é inteligente, de raciocínio veloz, observadora do comportamento humano e tem um mestrado em Psicologia para fechar a conta. Ela sabe jogar como ninguém e até o fechamento sabemos que ninguém nunca a venceu. Ao mesmo tempo, ela é alienada da realidade, tem uma psicose e crê que Nick a ama e que serão genuinamente felizes. Mesmo com o incômodo da misoginia que resvalou na trama, Garota Exemplar fez seu lugar comigo. Fazia tempo que uma obra não tirava o meu sono, me fez pensar e lamentar por dias. Coloquei um Alerta Misoginia em Gillian Flynn e suspeito que seu outro livro, Na Própria Carne, siga o mesmo padrão, pretendo lê-lo para ontem e confirmar isso. E eu não tenho outra maneira de encerrar o texto que não seja esta:

“Estamos prestes a nos transformar na melhor e mais brilhante família nuclear do mundo. Só precisamos sustentar isso. Nick ainda não aprendeu perfeitamente. Esta manhã ele estava acariciando meus cabelos e perguntando o que ele poderia fazer por mim, e eu disse: ‘Meu Deus, Nick, por que você está sendo tão maravilhoso comigo?’. Ele deveria dizer: ‘ Você merece, eu te amo’.
Mas disse: ‘Porque sinto pena de você’. ‘Porquê?’ ‘Porque toda manhã você tem de acordar e ser você’
Eu gostaria que ele não tivesse dito isso (…). Não tenho mais nada a acrescentar. Só queria garantir que eu tivesse a última palavra. Acho que fiz por merecer.”

Anúncios

Uma resposta em “Garota Exemplar: Crueldade e Misoginia definem.

  1. Muito bom, Juliana. Obrigada pela sua resenha. Não tinha pensado em como eu me senti enganada por essa desgraçada da Amy. Haha

    Eu lá sendo toda empática com a mulher e no fim ela é essa mentirosa desgraçada. Aff.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s