Back(F)lash: a problemática do Flautista

piperrrr

Acontece que fiquei encucada com o episódio 11 de The Flash. Sem rodeios mesmo. Nomeado de The Sound and Fury (aquele livro fantástico que nunca li), o episódio que teria o vilão gay Flautista, acabou sendo um show de vergonha alheia em termos de representatividade LGBTT. Terminei de assistir muito decepcionada, mas com o passar do tempo, fui ficando constrangida mesmo. O episódio teve bons momentos, porém se houve alguma tentativa de valorizar a diversidade, certamente flopou bonito. Ok, nós sabemos muito bem que os carinhas que botam nossas séries para funcionar não são lá especialistas em saber lidar com a representação de mulheres, negros, ou gays. Mesmo quando há visibilidade, as chances de uma escorregada são grandes. As ditas minorias ou não aparecem ou são representadas de acordo com estereótipos que manda o status quo. Mas a certeza disso não é sinônimo de jogar a toalha e dizer que é assim que as coisas são. Porque senão nada sai do lugar, certo?
Tá bom, vamos contextualizar as coisas primeiro. Faz um tempinho aí que os produtores de The Flash, aquela série gracinha, novata com audiência líder da CW, anunciaram que o vilão Flautista iria aparecer no show e seria interpretado pelo ator Andy Mientus, que somente os guerreiros que encararam a segunda temporada de Smash devem conhecer;Ok. Mas como todos os portais de notícias não esqueceram de destacar, Flautista é gay, um dos poucos gays assumidos no mundo dos quadrinhos. Ou seja, não é que inventaram que ele seria gay para pagarem de inclusivos. E não é que eu seja contra esses recursos. Íris e Joe são brancos nos quadrinhos, mas na série são interpretados por atores negros, afinal em 2015 é inadmissível um elenco todo branco, isso aí eu concordo. Em um mundo ideal pessoas de todas as cores teriam tanto espaço na TV que a questão da cor seria algo neutro, só que estamos longe disso, então não adianta choramingar que o politicamente correto é o câncer da atualidade, enquanto houver desigualdade temos a obrigação de criar recursos que a coibam. Por mais chato que seja, e sabemos que nem sempre é eficaz, precisamos sair tentando.

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Então a presença do ‘vilão gay’ pelo menos eu entendi que seria mais uma dessas tentativas de quebrar barreiras, tanto é que o ator escolhido é gay na vida real. Ai que saco, quer dizer que só gay pode interpretar gay?. Calma aí, colega. Sim, pode fazer mimimi, porém é justíssimo. O ator levar uma vivência que só ele e seu personagem tem é um trunfo. Não significa, no entanto girar tudo em torno da questão, porém em termos de representatividade é um detalhe importante. E devo confessar que é muito irritante termos a tendência de parabenizar um ator hétero que interpreta um gay, por seu profissionalismo e falta de preconceitos, mas quando um gay interpreta um gay a gente meio que caga pra isso. Do alto de nosso privilégio esquecemos que ainda é um tabu muito grande para um ator se assumir. Porque um hétero convence sendo quem ele não é, mas se algum galã da vez se assumisse hoje, nós estranharíamos se ele fizesse uma comedia hétero romântica. Sua condição sexual seria lembrada e acharíamos tudo fake. Esse é o nível da hipocrisia. O mesmo caso quando eu tô me derretendo sei lá, por um Matt Bommer ou Rick Martin da vida e sempre tem um otário pra me dizer: é, mas ele é gay. E daí? Faz diferença pra ser desejado? Para o grande público, ainda sim. Eu não acompanhei os comentários dos fanboys sobre o assunto porque não quis me desgastar à toa, mas fiquei ansiosa para ver o resultado na TV. E pude conferir na sexta (dia 06)e o que foi aquilo?

Barry abre sua narração com a seguinte frase: “É fácil acreditar em heróis, o difícil mesmo é quando eles param de acreditar na gente”. Esse será o mote do episódio, ou mais especificamente sobre ter alguém que acredita em você, alguém em quem você se apoia, e de repente, essa pessoa passa a ser o herói para outro e de certa forma, você acaba se decepcionando com ela. Há um momento muito bonitinho quando a equipe toda tira uma foto de lembrança de mais uma missão cumprida. Há todo aquele clima de família feliz, e Dr. Wells é o paizão da trupe. Quem assiste a série sabe que o doutor não presta, mas ele e Barry vão construindo uma relação de confiança mútua, ele é a figura masculina que emula autoridade e apoia a Barry, assim como Joe, o que causa uns conflitos vez ou outra. Fim do expediente e Wells vai para casa, ouve sua ópera, anda, e é atacado por algo que destroi seu teto de vidro (que coisa, não?), e bom, Wells sabe muito bem quem foi. Parte para o flashback, onde conhecemos Hartley Rathaway, um talentoso físico (acho?) que trabalha com Wells. Gênio, arrogante, sem nenhum traço humanizador, ele não é muito bem quisto pelo resto da equipe, no entanto, ele tem uma ligação doentia muito forte com Wells, e o respeita. Os dois trabalham no acelerador de partículas, e Rathaway avisa o óbvio: que o acelerador tem chances de explodir. Wells segue o projeto, o resto é história, assim como Hartley sofre sequelas do acidente. Ele volta decidido a se vingar do doutor.Volta para o presente, e Wells admite para a equipe, que sim, ele sabia do risco da explosão, todo mundo fica revoltadinho, mas antes disso foi preciso pegar a criança que tá aprontando ruas a fora. A captura é fácil, mas esse era o objetivo de Hartley, que se liberta, agride Cisco e Caitlin e foge com alguns arquivos preciosos. Segue o episódio com Harthley sendo insuportável, querendo fazer sua vingancinha e sendo preso novamente. No final, ele diz que sabe como encontrar o noivo de Caitlin, o Nuclear. Já no episódio seguinte, ele finge que vai ajudar Cisquito (morta) e dá uma sambada no garoto e foge.

piperr
Com um resumo bom (será?) desses, acho que dá pra seguir com o texto. A estrutura do episódio e seu gancho final são ótimos, e até achei que os poderes do Flautista foram convincentes (Sobre o Flautista sequer ter uma flauta e terem mudado suas origens, vou deixar o mimimi pro Combo Séries), mas vamos lá: A primeira cena de Hartley e o Dr.Wells já diz tudo. Eu quero saber quem foi o escritor de fanfic yaoi que escreveu a porra do texto, nada contra yaoi em si, mas a coisa toda ficou fora do lugar e constrangedora. A relação entre Hartley e Wells tem uns tons homoafetivomelosos que se espalham para as outras opções: Wells e Cisco, Wells e Barry, Hartley vs Cisco, Hartley vs Barry. O menino tem ciúmes de Wells e se corta de ódio de qualquer rapaz (potencial rival) que se aproxima do seu ídolo. Obviamente, Caitlin não é vista como uma ameça. O primeiro problema é com Cisco, onde sugere que Wells deveria começar a consultá-lo quando for contratar alguém (mas vê se pode?). Depois, ele concentra sua pirraça com Barry e fica um mimimi de tentar ferir o Flash para machucar Wells, de ‘ele vai mentir pra você’, ‘ele está te usando’, ‘ele vai te deixar também’, ‘é ele quem você escolheu?’.
Seria algum problema se de fato, Hartley sentisse alguma coisa por Wells? Não. Mas o texto é tão covarde que prefere levar o episódio com frases de duplo sentido, sem se aprofundar nessa possibilidade. As pistas estão todas lá: Wells joga xadrez com Barry como costumava fazer com Hartley; Mestre e pupilo se comunicam carinhosamente em latim; Cisco e Caitlin não sabiam onde Wells morava, o ex-pupilo sim. Humm. Poderiam sim, ter trabalhado com um clima homoerótico, mas a ‘real’ é que supostamente o problema de Hartley é que Wells ferrou com sua vida profissional e com seus ouvidos. Mas o que se viu nitidamente foi a choradeira porque foi rejeitado e concentra toda sua dor em ser a bicha má, arrogante e maquiavélica, cadiqué Wells encontrou outro.

piperrr
Agora, sejamos sinceros: o roteiro teria todo esse tom de “vc sempre será meu garoto” se Hartley fosse hétero? Me diga quando essa melação toda houve na série, envolvendo personagens héteros. Não, algum gênio achou que seria uma sacada super legal encher o episódio de duplo sentido, botar a bitch rejeitada pra ferrar com todo mundo, mas ao mesmo tempo passar em branco a sexualidade do garoto. Ao mesmo tempo em que se ser gay não fez diferença nenhuma dentro da narrativa, para passar a impressão de que esse atributo não influencia em nada e não deveria, por fora, certamente houve um planejamento para lidar com a espinhosa questão do vilão gay. Então a melhor saída foi usar um recurso antigo e criar o vilão gay onde toda sua odiosidade está diretamente ligada a sua sexualidade. E lógico, que ele não vai ser cool como o Capitão Frio. Ele é ser grosso, nojento e detestável. De todos os vilões que passaram por The Flash, o Flautista é absolutamente repulsivo. Mesmo antes de ganhar seus poderes, ele já era nojento, nojentice sempre ligada ao afeto que tem por Wells. E repito, em nenhum momento fica explícito nada, a dualidade dos diálogos servem justamente para sugerir e negar que há algo de sexual acontecendo. É uma jogada podre. Bastaria mudar o tom malicioso do texto, desarticular o ciúme de Hartley e pronto, seria um episódio decente. Porque tinha muito potencial em jogo.
Por causa disso, o Flautista é um personagem ruim? Não totalmente. O super popular Félix foi criado com os mesmos estereótipos e dispensa comentários. Outra bixa má e mordaz das novelas é Teo Pereira, interpretado por Paulo Betty, eu só vi umas cenas o suficiente para achar forçado demais. E pra fechar a conta, tem o Thomas de Downton Abbey, outro que problematicamente tem a sua maldade e revolta atrelada a sua condição sexual. Eu não suportei o Flautista em The Sound And Fury, mas a virada que ele dá em Cisco e sua inteligência soberba me ganharam. Os pais dele já fizeram uma rápida aparição na série (onde o pai diz que Hartley está morto pra eles) e pelo que pesquei na net, o futuro namorado dele trabalha na polícia (eu lembro e não lembro do cara). Provavelmente vão trabalhar a questão da homofobia e a redenção do personagem, afinal nos quadrinhos ele chega a desistir da vida do crime. Tá, eu não ia falar da origens, mas nas hqs, o Flautista vira vilão por puro fascínio pelo poder que tem. A vida de bandidagem lhe dá um ótima oportunidade de explorar seus dons. Na série, espero que Hartley não vá ter o momento de dizer que é ruim porque sempre se sentiu diferente e isso moldou seu caráter.
Mas gays não podem ser vilões? Poderiam sim, se certos recursos antigos que tanto promoveram e internalizaram preconceitos já tivessem sido superados. Gay ácido, que corta todo mundo, que mistura ruindade (quando não feminilidade) para mover suas vilanias é ultrapassado. A gente até curte, porque fomos acostumados ou a rir, ou a sempre esperar tiradas cortantes deles, e muitos são personagens incríveis mesmo. Agora é necessário marcar que nada disso é revolucionário e refletir até onde se faz necessário repetir esses modelos.

mimimi

Mas Pied Piper, ainda que o cara esteja usando uma roupa ridícula?

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