Eternal Sabbath: o aborto e a maternidade em pauta

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ATENÇÃO: Este post contém spoilers absurdos sobre o enredo. Avisei.  

Faz um tempinho que terminei de ler o maravilhoso mangá Eternal Sabbath e queria falar sobre ele. O mangá é seinen, tem oito volumes e é de autoria de Fuyumi Souryo, mangaká que eu adoro. Os trabalhos de Souryo são intensos, com muitos conflitos psicológicos e ao mesmo tempo de uma singeleza invejável. Temas como abusos, traumas e superação são presentes em suas obras e Eternal Sabbath não fugiu a regra. A autora do mangá consegue mesclar em uma obra só, elementos de ficção científica, questões sobre moralidade e família, construindo uma narrativa que pode ter diversos recortes sem se tornar novelesca ou mesmo panfletária. Fuyumi escrevia mangás shoujos, mas se mudou para os seinen faz um tempo e parece que não vai voltar para nós tão cedo. O que não nos impede de ir até ela. Eis a sinopse, by Tia Wiki (e eu, ou seja meia boca):

“ES (Eterna Sabbath) é um gene desenvolvido por um grupo de cientistas que buscavam a imortalidade. A presença do gene confere ao portador até 200 anos de vida, e imunidade a todos os tipos de vírus. Embora a intenção original dos cientistas fosse demonstrar a viabilidade da vida eterna, ES tem inesperadamente o poder adicional de controlar mentes e alterar memórias. Mina Kujou, uma brilhante neurocientista, conhece o estranho Ryosuke Akiba durante um assalto e descobre que ele é um ser humano geneticamente modificado com o gene ES. Junto de Akiba, ela encontra Shinichiro Sakaki, um dos cientistas que faziam parte do Projeto ES. Sakaki estava vigiando os passos de Akiba, mas revela que procura com mais urgência, Izaku, outro ES, clone de Akiba, mas diferente deste, é cruel e vê os seres humanos como inferiores e meros brinquedos para suas sandices. Em resumo, Kujou, Akiba e Sakaki se juntam para tentar capturar Izaku e pôr um fim nas crueldades do clone, que ainda é uma criança.”  

 Mas hoje não vou falar do mangá (pena!) como um todo, e sim destacar dois temas abordados que muito me chamaram a atenção na forma como foram colocados na história: a maternidade e o aborto. Curioso pensar que para muita gente essas duas coisas não se misturam; que são assuntos diferentes, e um anula o outro, quando na verdade ambos têm a ver com a questão da escolha da mulher e o controle do corpo feminino. E em um plano não tão distante, também tem a ver com a vida em si, o desenvolvimento ou não de um novo ser e as conseqüências disso. E as questões deste post giram em torna de Yuri, não mencionada na sinopse, mas cujo drama me comoveu enquanto lia a história. Yuri é uma interessante personagem do mangá, pois mesmo sendo apenas uma criança vira amiga do vilão Izaku e durante um tempo consegue a afeição dele. Ela não parece se importar com os atos cruéis dele porque acha que pessoas más devem ser punidas e não vale à pena lamentar por elas. Kujou, uma das protagonistas, vira amiga de Yuri e tenta entender por qual motivo a menina é daquele jeito, afinal uma criança não poderia ter esse tipo de atitude assim, no vácuo.

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Durante uma conversa, Kujou descobre que a mãe de Yuri bate nela constantemente e resolve confrontar a mulher, onde ouve que a menina não é boa coisa nenhuma, rouba coisas e é desobediente. Depois, a mãe de Yuri afirma que odeia a filha e rudemente manda a cientista não se meter em assuntos de família. O comportamento de Kujou é exemplar: mesmo com toda a grosseria da mãe ela resolve se meter sim, afinal a menina está sofrendo abusos familiares e a protagonista se recusa a simplesmente deixar pra lá. Após um novo confronto descobrimos que a mãe de Yuri, que se chama Iwamura, também veio de um lar abusivo: ela apanhava do pai que batia nela e na mãe. Iwamura tinha ódio da mãe porque não a defendia e continuava naquele casamento. E claro, mais ódio ainda do pai que fazia a vida delas um inferno. Ela revela que batendo em Yuri ela se sente melhor e vê a maternidade como um fardo.

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Esse é um tiro certeiro da autora. E sem dúvidas é um dos maiores mitos que nós mulheres somos condicionadas a aceitar. Questionar o mito do amor maternal até dói na alma, eu pelo menos me sinto uma VILÃ , uma maldita sem coração que está atacando algo que socialmente é óbvio: o instinto maternal existe. Mas basta respirar um pouco, guardar as pedras e olhar mais atentamente e vemos que não é bem assim, que o instinto maternal não parece ser fodão. Chata como sou, começo a questionar: “Se TODAS as mulheres têm instinto maternal e ele é tão forte, capaz de transformar o coração da mais dura criatura, então porque tem mãe ruim no mundo?”

“E se o amor maternal é sacrossanto porque nós mulheres somos culpadas quando nossos filhos fazem coisas erradas?” “Porquê quando querem xingar alguém, xingam as mães, esses seres que deveriam ser sagrados?”

E os argumentos nunca me convencem:

Ah, mas tem mulher que é uma puta e não deveria ser mãe!‘ Mas pera! Porque o instinto maternal não mudou aquela mulher? “Ela não nasceu para ser mãe!”, Ué, mas toda mulher não nasceu para ser mãe?? E entramos numa roda doida.

Sim, ter filhos não faz ninguém expert em maternidade. Menos ainda significa que a mulher sempre vai virar uma leoa pelas crias. E existem muitas leoas por aí lutando pelos filhotes e eu as admiro muito. Mas o realismo deve preceder o romantismo. Quando adolescente eu achava horrível mulheres que viajavam e deixavam os filhos, que iam trabalhar e o horror: deixavam as criança nas CRECHE, como assim? Existem mulheres e mulheres, realidades e realidades e a necessidade de uma é diferente da necessidade da outra. Nem toda mulher quer ser mãe, e a maternidade não é um poção mágica de amor que vai transformar as pessoas.

Outra coisa é que Iwamura não é um demônio horroroso assim do nada. Ela carrega sinais de estresse pós-traumático, após anos vivendo um pesadelo doméstico. Seu quadro emocional se agrava com a depressão pós-parto, e tudo isso aparentemente passa batido. Ela guarda todo o rancor e estresse de uma vida de abusos dentro de si, e consegue aliviar um pouco da sua revolta na filha, que ela enxerga como culpada também. Ela é como tantas mulheres que sequer dão conta do nível de desespero e miséria que se encontram. Simplesmente porque tudo se resume a frescura de mulher, a falta de caráter, mulheres são histéricas, instáveis mesmo. Depressão por ter uma criança, uma dádiva em sua vida? Que horror! É desse jeito que o mundo nos trata. Como pedir ajudar assim? Como se reconhecer como vítima?

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Voltando ao mangá, Iwamura descobre que está grávida. É aí que as coisas ficam interessantes. Incentivada por Kujou, ela começa a fazer terapia, e o seu maior desejo é ser uma boa mãe para Yuri. Ela nunca quis ser mãe e mesmos com todos os demônios que carrega, a família que ela construiu é algo que ela tem de lidar de alguma forma, foi sua decisão e ela decide fazer o melhor, a começar reparando sua relação com a filha. Ao saber que está grávida, sua primeira reação é dizer que vai abortar. Ela não quer ter a futura criança. Seu objetivo agora é ser uma boa mãe para Yuri, se dedicar somente a ela e um bebê poderia atrapalhar isso. Em momento algum ela hesita.  Veja bem, ela poderia ver a gravidez como uma segunda chance. Poderia fazer tudo de novo, só que dessa vez da forma correta. Teria o bebê e tudo o que ela errou com Yuri faria o certo com a nova criança, e claro isso não a impediria de construir laços com a filha mais velha também.

Mas Iwamura deixa bem claro quem ela escolhe cuidar. Entre o feto e Yuri, ela escolhe a Yuri. Afinal o feto é uma expectativa, ela não sabe o que vai acontecer, inclusive tem medo de gostar mais do bebê do que de Yuri. Sua única certeza da vida é Yuri, uma criança de dez anos que é mais real do que nunca e já sofreu demais nas mãos dela. O discurso dos pró-vida-do-feto é interessante, eles concentram todas as suas forças naquela expectativa de vida em desenvolvimento e nunca vejo o mesmo interesse com crianças abandonadas ou marginalizadas, porque a patrulha é dentro do corpo, saiu, agora é com você mamãe.

Iwamura faz o aborto, se sente um pouco culpada por ter desistido do filho, mas reflete consigo mesma: “serei uma boa mãe para Yuri”. E falando em pró-vida, o vilão Izaku aparece na casa dela atrás de Yuri. Ele lê seus pensamentos e se revolta. Então a mata, criando uma horrorosa ilusão onde o pai abusivo de Iwamura aparece e a faz matar o marido antes. A revolta dele é a mesma de todos os pró-vida: ela matou o filho, é uma vagabunda sem coração. Izaku que é um clone se identifica com o feto, e por isso mata Iwamura. Ele acha um absurdo que ela mate seu filho, mas curiosamente nunca fez nada quando ela batia em Yuri.

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E ele conta pra Yuri, achando mesmo que ela iria apoiá-lo!

E ele conta pra Yuri, achando mesmo que ela iria apoiá-lo!

Rapidamente achei horrível que Iwamura tenha sido punida por ter abortado. Mas ao ler com mais calma, fica evidente no mangá que Izaku não deveria tê-la matado. E mais ainda: somos levados a empatizar com a escolha dela. Nenhum personagem achou linda a decisão do aborto, mas o contexto de Iwamura e sua filha foi levado em conta e a decisão dela respeitada. Apenas o vilão, que ironicamente matou um monte de gente, se compadeceu do feto assassinado. E sim, ele que gostava tanto da Yuri não aceita ser rejeitado por ela e adivinhem, ele a mata também. A vida de quem já veio a este mundo é descartável demais para ele. Esse é Izaku, o cara que puniu a mulher que abortou. Não sei se alguém com a cabeça no lugar iria se identificar com esse pró-vida tão gente boa.

Apesar da minha tristeza enorme pelo desfecho, achei importante a forma como os dois temas foram inseridos. Minha única queixa seria: e o pai da Yuri, cadê? O foco do mangá é a relação de Yuri com Iwamura, ok, mas faltou marcar a posição do pai nisso tudo. O marido de Iwamura não era abusivo, e nas poucas vezes que é mencionado parece ser gentil e compreensivo. Isso é ruim? Não, mas ele não parece defender Yuri, só podemos concluir que ele via tudo passivamente, apesar de ficar claro que ele sabia de todos os problemas da esposa. Enfim, ele acaba sendo o inocente da história toda. A autora quis trabalhar sim a relação mãe-filha, mas o ambiente abusivo de Yuri tinha mais uma pessoa, poderia ter colocado alguma coisinha, nem precisar aprofundar nem nada, só mostrar algo mesmo sobre o pai. Outro pequeno detalhe que acho importante destacar: os nomes dos capítulos em que o aborto entra em pauta. Nenhum remete a culpa, covardia ou um julgamento, apesar de Kujou e Akiba não gostarem da decisão de se abortar o feto. Quando Iwamura descobre que está grávida e decide abortar: Decisão; Quando já feito o aborto e manifesta seu desejo de seguir em frente: Reinício. Sei lá, imagina o impacto que a história teria se a autora colocasse Morte, covardia ou qualquer outro nome do tipo? E outra coisinha: os dois capítulos fazem referência à mulher, o ser agente dessa situação e não ao indefeso bebê.

Vivemos momentos sombrios aqui no Brasil, onde o aborto só é permitido em situações muito específicas. E para piorar de vez, temos um grande inimigo liderando a Câmara. Acho ridículo, a mídia dizer que Cunha é inimigo do Governo, quando na verdade ele é inimigo dos Direitos Humanos. Interessantíssimo que a porcaria dos nossos telejornais está caladinha sobre o fato de termos um fundamentalista asqueroso com tanto poder solto por aí. Quanto estrago esse verme deverá fazer para que a nossa indignação seja ouvida? Em tempos de invenções mirabolantes que humanizam fetos, nossa condição de mulheres vai se reduzindo ao de meros receptáculos. Seja pró-vida, ou seja, a vida de mulheres e crianças que partilham desse mundo. Vítimas de abusos, da violência e/ou pobreza; pode ser difícil de acreditar, mas fetos não sofrem mais com a miséria deste mundo do que quem já está nele. É uma pena que nós mulheres não possamos voltar ao útero de nossas mães.  O único lugar onde a culpa não é nossa.

um

Ps: Um dia, um distante dia, eu falarei sobre Eternal Sabbath (sem tantos spoilers!) ou mesmo tiro um post só pra tietar Souryo Fuyumi e suas obras, corre povo, vão ler os mangás da autora que são muito bons! (Eternal Sabbath pode ser lido ak.)

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