Mad Men: chegando a hora da despedida

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Este texto dá início a vários posts sobre uma série  muito querida que se despede este ano. Mad Men retorna no dia 5 de abril para dar prosseguimento ao seu final, e antes mesmo do definitivo fim a série já entrou no hall de melhores séries que já existiram. Premiadíssima com muita justiça, mesmo que tenha um público restrito e quem não assiste provavelmente nunca gostou de ver essa série levando todos os Emmys a nível de sempre, Mad Men sempre mereceu  o prestígio que tem. E não se ofenda, mas não é uma série para todos. Com um ritmo lento, denso e recheada de sutilezas pode afastar quem procura algo mais óbvio, explicadinho, rápido ou mesmo novelesco. Em sua sétima temporada, está se despedindo desde o ano passado, pois a AMC numa jogada nada interesseira resolveu esticar, e dividir a temporada em duas. Sabe aquela desculpinha besta de dividir o último livro em dois filmes? Pois é, no mundo das séries isso também acontece. Superado isso, eu estou na expectativa para os episódios finais e tentando não pirar com isso.

 Mad Men é antes de tudo uma típica série sobre o que eu chamo de ‘mundo de homens’, onde tudo gira ao redor deles, sua visão de mundo, onde eles botam as coisas pra funcionar e acontecer. Lógico que esse é um tipo de recorte, afinal homens e mulheres que fazem a história da humanidade, porém, obras como Mad Men, Poderoso Chefão, Monster e etc. são sobre homens e o mundinho onde eles operam. Ah, sim um mundo de homens brancos!  É o tipo de série que provavelmente vai desagradar muitas feministas, aliás essa ominormatividade me incomodou no começo, mas a partir do momento que você compra essa ideia, é possível apreciar a beleza da série. E que fique bem claro que a beleza de Mad Men não está em seus homens, mas na forma como o time de roteiristas e diretores conduzem uma década onde direitos civis e feministas estavam fervilhando e ganhando impulso para a década de 70, ainda que amargamente deixem o  lugar para os anos 80, com o  pesadelo da AIDS, o backlash, a reação conservadora as poucas conquistas. Com esse cenário de mudanças sociais dá para fazer um rápido paralelo com Downton Abbey, mas a diferença é que enquanto na série inglesa vemos a reação e adequação de patrões e empregados diante de transformações sociais, em Mad Men vemos apenas como reage o homem branco de classe média. Mulheres e negros não têm as nuances de seus movimentos sociais explorados, ainda que a série tenha mulheres de destaque. Feminismo, racismo, homofobia foram tópicos tratados de forma muito superficial, mesmo que algumas raras cenas tratem das questões (e algumas de forma bela) não dá para vender o pouco como muito.

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E pera, tenho que ser justa: atrás das câmeras, Mad Men tem várias mulheres que assinam o  roteiro e a direção dos episódios ao longo das temporadas. Quero destacar a maravilhosa e super competente Jennifer Getzinger que não apenas assina Mad Men, como também tem em seu currículo Sopranos, Requiém Para um Sonho, O Diabo veste Prada. E junto dela, Lisa Albert, outra linda, maravilhosa e premiada. E mais, Lesli Linka Glatter que tem um currículo extenso e invejável (Good Wife, Gilmore Girls, True Blood, Greys Anatomys, House M.D, Mentalista, Homeland…) E fechando a conta com Maria Jacquemetton, que sempre trabalha com o marido, Andre Jacquemetton, não por passividade, e sim porque os dois são mais do que um casal, são parceiros de profissão, e tá, meu lado meigo acha lindinho como os dois sempre trabalham juntinhos.  Eu recomendo que vocês leiam esse texto sobre mulheres diretoras, incluindo Getzinger e Linka Glatter para terem um noção do quanto é importante destacar o trabalho dessas mulheres.

Fazer uma série de época não significa de jeito nenhum pensar e executar um roteiro com os pensamentos dela. Sim, parece absurdo, mas se eu fizer um filme sobre os anos 60 pensando como as pessoas pensavam nele, quais as chances de sair algo racista e machista? Ao mesmo tempo, a obra não pode ser panfletária, as falas não devem ter discursinhos articulados como se os personagens estivessem saído da nossa era da intenet. É preciso que se tenha toda uma sensibilidade para dosar as coisas, sem ferir quem fomos, ou ferir quem somos ou deveríamos ser. Nesse aspecto, Mad Men teve suas derrapadas, mas de forma geral se saiu muito bem. Erraram e acertaram com suas personagens femininas principais muitas vezes, porém há de se lembrar que independente da época, há muitas séries que são assim também.

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E como não falar em Don Draper? Jon Hamm fez seu lugar comigo, não somente pelo óbvio, hehe, mas porque seu Don é um canalha de alto escalão que é a alma da série. Mad Men é sobre a vida de Don Draper, publicitário competente, e que tem todas as características de um típico omidebem: trabalhador, bom pai, esposa dócil, que bebe muito, transa com muitas mulheres, desarticula seus desafetos e vai levando a vida. Don não é  nenhum herói e não é pintado como um. Eu  o odiei em muitos momentos, acho que quase sempre, porém não existe a série sem ele. E pode não ser um mocinho, entretanto, sua humanidade e demônios do passado nos ajudam a compreender um pouco, apenas um pouco sobre ele.  Ah Roger Sterling!  eu gosto do Roger apesar de tudo. Não tem o que odiar afinal. Ele é carismático demais para isso, mimado demais, certo, só que um personagem com tiradas tão boas fica difícil detestar. E adoro suas crises existenciais e manias. A gente sempre perdoa as besteiras do Roger, porque o talento de John Slattery ajuda e muito.

Bert, eu quero muito me lembrar de onde foi que saiu a definição mais perfeita que li sobre Bert: o desnecessário mais necessário da série.  É isso que ele é. Já Ken Cosgrove foi o único publicitário que amadureceu durante as temporadas, e não sei se foi por causa da sua transformação em bom moço que os roteiristas inventaram de idiotizá-lo na reta final. De todos, Ken era muito nojento, e nossa, o quanto esse rapaz mudou! Ficou até mais bonito, mas repito: tem algum quê de recalque no ar para terem embestalhado ele. Só acho. Harry começou um imbecil, vai terminar como um imbecil, mas bem sucedido. Nem sempre dá para torcer contra essa macharada o tempo todo, porém eu admito que os passos de Harry são admiráveis: ele criou o Departamento de TV em um momento onde ninguém  ligava muito para isso e com o tempo, tornou-se essencial. Agora, é revoltante que enquanto ele tá curtindo a vida, o Ken tá sendo ridicularizado por clientes mimados.

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Peter Campbell, ahhhhhhhhhhh o que dizer desse ser que a gente adora odiar? Que quando não queremos que o Don humilhe ele, queremos que ele humilhe o Don? Essas inversões geram uma dinâmica maravilhosa na série. Ele e Don duelaram e se uniram tantas vezes que eu perdias contas. Peter é o cara que quer levado a sério, mas é muito novo para isso, ok, de forma geral Peter é um verme, e toda vez que eu acho que ele vai atingir o fundo do poço, ele surpreende na sua escrotidão.  Lane é o personagem mais deprimente que colocaram na série. Eu não tinha raiva dele, só pena mesmo. Desprezado por todo mundo, velho já, mas ainda sendo  o garotinho assustado do papai, não me admira o fim que teve. Mas ele fez o que todo mundo sempre teve vontade de fazer: dar umas porradas em Peter e isso é o suficiente para sua redenção comigo. E  o resto do elenco enorme vai ficar de fora, porque sinceramente nem todos me interessaram nesse tempo todo. E é muita gente!

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E as mulheres? Bom, as mulheres terão posts só para si porque quero destacar algumas coisinhas que me recuso dissecar em um post geral como esse. Mas só para pincelar, o destaque sempre foi o  trio feminino principal, composto  por Betty, Joan e Peggy. Com o passar das temporadas, temos Megan e a queridinha Sally Draper ganhando bastante espaço. E sim, a maioria absoluta das personagens femininas trabalha; são inteligentes, competentes e não são cegamente passivas. E elas interagem entre si, embora a maioria dos diálogos alternam entre homens e picuinhas, mas Mad Men mesmo com toda sua omice passa num Bechdel Test fácil, por ora só posso falar isso.

Perceberam que esse post foi todo picotado, né? Pois bem, os próximos posts serão exclusivamente sobre questões de gênero e um quero relaxar e encher de melhores momentos, melhores episódios, tudo! Eu espero que o fim seja digno da grandeza da série, isso é super clichê, é o que desejamos para todas as séries que gostamos, mas é a verdade. Como falei lá em cima, eu sei que muita gente não aguentava mais ver Mad Men ganhando sempre, aliás quem nunca ouviu ou falou :’alguém assiste essa tal de Mad Men? É boa mesmo?’, toda vez que tem alguma premiação ouço isso. Ainda que individualmente as coisas sejam diferentes. É isso povo, bye, antes que eu não termine nunca.

Jon Hamm lindo até com essa barba horrenda.

Jon Hamm lindo até com essa barba horrenda.

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