Mad Men: esposas, donas de casa, mães e filhas…

Joan_in_Mystery_date

Dando continuidade aos posts sobre Mad Men, hoje, quero dedicar algumas linhas sobre algumas relações femininas na série. Mad Men tem muitas personagens femininas e elas interagem bastante entre si, tanto no mundo do trabalho quanto no ambiente doméstico. Sempre quando pensamos em décadas de 50, 60 a imagem que temos das mulheres é aquela da dona de casa (branca e loira) sorridente com belos filhos. Ou então, da dona de casa (branca e loira), insatisfeita e presa ao lar com seus belos filhos. Na série, o ambiente doméstico é mostrado de forma mais competente, embora Mad Men não seja panfletária, está longe de passar a imagem de que as mulheres eram todinhas felizes com a rotina de donas de casa. Umas das características repetitivas da série é a insatisfação das esposas com seus maridos, cobrando atenção e participação deles na vida familiar/doméstica. E sendo uma série que mostra a rodo o que esses homens de bem fazem quando não estão em casa fica impossível achar que elas estão sendo chatas. Todas as mulheres dos publicitários são bonitas, interessantes e dedicadas, não são pintadas como megeras do lar (Betty é exceção), o que atrapalha a relação quase sempre é o egoísmo dos maridos, vide Don e Peter.

o-MAD-MEN-TRUDY-facebook

De todas as esposas, Trudy é minha favorita. Ela é a mocinha bem nascida, criada para ser esposa e mãe, acredita nisso, mas tem personalidade forte e é um doce de pessoa. Alison Brie é uma das minhas atrizes de seriado favoritas, é talentosa, sua Trudy é tão inteligente e delicada quanto Annie de Community, mas são completamente diferentes. Trudy é atenta aos negócios do marido, porque seu pai e Peter são sócios e ela se vê e se impõe como parceira dele também. Só Peter para estragar tudo com alguém tão maravilhosa. Mona, como Roger bem disse, é uma leoa. Eu adoro a Mona, ela tem uma força que se percebe de longe. Diferente de Jane, que é a personagem que conseguiram estragar em segundos. Certo, Mad Men tá cheio de mulheres interessantes, então botar uma interesseira  não chega a ser criminoso, mas ela rapidamente vira a perua super fútil que após o divórcio quer uma apartamento caro e uma pensão gorda. Cynthia, a esposa de Ken aparece pouco, até entrega o marido sem querer uma vez, mas os dois pelo visto são o casal mais estável/ feliz da série. Eu não acredito que mulher muda um homem, eu acredito que um homem pode mudar por causa e/ou influência de uma mulher, assim como vice-versa e variantes. Ken amadureceu muito e sua estabilidade familiar prova isso. De forma geral, as esposas interagem entre si e se dão genuinamente bem. Até porque estão no mesmo barco e  há mais solidariedade entre elas.

Mad-Men-Pete-Trudy-Campbell-House
Agora, de regra universal, mulheres são sempre pintadas como rivais, sejam irmãs, amigas ou mães e filhas. Quando a mãe não é ausente, ela é uma megera. Me incomoda que em Mad Men há várias relações entre mães e filhas e todas envolvam grosserias, desprezo ou inveja .Peggy e sua mãe têm uma relação conflituosa, mas interessante. Peggy foi criada em família religiosa, sempre teve espírito livre, vontade de alçar outros caminhos. Sua mãe tem orgulho dela, porém se incomoda com o desapego da filha em valores mais tradicionais. Critica Peggy por não valorizar o homem que tem, e mais tarde quando Peggy decide morar com Abe sem casar a coisa fica feia de vez. Se fosse a única relação mãe-filha conflituosa da série ficaria tudo bem. Mas sendo mega justa: a mãe e irmã de Peggy adotam o filho de dela e ficam quietas sobre o assunto. Mad Men foi corajosa ao tratar da questão do filho da Peggy. Foi frio demais? Foi. Para quem atravessou temporadas esperando que a consciência de Peggy pesasse e ela voltasse atrás, foi um baque. Peggy não tem nenhum ‘instinto maternal’, ela amava Peter e como bem disse, poderia tê-lo para si se quisesse, mas ela tinha outros planos. E mesmo sendo indiferente quanto a criança, ela é filha do seu tempo, e sonhava que Abe, o imbecil, fosse pedi-la em casamento. Pode ter parecido estranho para nós, mas mesmo a mais independente mulher dos anos 60 poderia ter alguma fantasia da época em que vive.

mad-men

As mães de Megan e Joan têm em comum serem as confidentes e conselheiras das filhas, ao mesmo tempo em que as criticam e que parecem invejá-las. São mulheres nada simpáticas e de caráter duvidoso. A relação com as filhas é mais de animosidade do que amizade. Não consigo tirar nada de positivo entre Megan e sua mãe, já no caso de Joan mesmo com rusgas por todo o lado, há cenas delicadas como a linda cena do elevador. A mãe fica para ajudar Joan com o bebê, é solidária com a filha, mas a eterna inveja feminina empobrece a relação das duas. Joan, a femme fatale, competente, livre e independente também se mostrou filha do seu tempo. Eu na minha ingenuidade não esperava que ela realmente quisesse se casar e fosse toda amélia com o marido. A cena em que seu marido pede água e ela se levanta para buscar foi um choque 🙂 . Mas assim como Trudy, Joan tem personalidade o suficiente para se cansar de tentar manter seu casamento com alguém que não dá o menor valor. Ela não teme que Greg a deixe com um bebê para criar, e no final lembra da cena em que ele a estuprou na agência. Cena esta, horrível, onde o noivo com ciúmes do ambiente de trabalho livre e independente de Joan, tem a atitude de mostrar quem manda na relação, não interessa onde. A retomada do assunto e o confronto foram acertos da série.
Megan entrou na vida de Don em um momento onde o publicitário queria reconstruir sua vida. E sendo um casamento feito por impulso, se desgastou rápido. Lembro quando, tanto Don, como muita gente, ficou onwww, quando em uma viagem de férias, Megan não se aborrece com a bagunça das crianças e claro que é impossível não pensar que se fosse Betty teria dado um piti. Mas vamos com calma : Megan é jovem, solteira, gosta de crianças, mas não tem filhos, está a passeio, é lógico que ela iria reagir mehor do que Betty. Bobagem querer comparar.
E foi Megan quem protagonizou uma das cenas mais machistas e infelizes da série:

episode_1_end_1
Sim, ela tava limpanda a casa de lingerie porque estava quente e ela não queria sujar a roupa, sei lá, nem lembro direito. Seguido de um joguinho sexual idiota entre ela e Don. Eu tenho nojo dessa cena, foi muito, muito infeliz mesmo. A Gisele toda sexy limpando a casa é fichinha comparada a isso. E justo no episódio onde Jessica Paré entrou para a história cantando Zou Bisou Bisou, uma das melhores cenas da série inteira. Fechar a conta com misoginia não tem perdão.

1401169490703.jpg-620x349

Betty foi se vilanizando como mãe temporada por temporada e nem mesmo eu posso defendê-la a essa altura. Ela é egoísta demais, insensível, amarga e podemos perceber que isso nada tem a ver com a triste situação das donas de casa daquele tempo. Na primeira temporada poderíamos pensar assim, mas de forma geral, Betty é um ser humano horrível por dentro e usa seus filhos para exercer sua maldade. Nada a faz feliz, deixar de ser esnobe ou mesmo ficar satisfeita. E adivinha: ela não se dava bem com mãe, pois esta a criticava sempre, tal como ela faz com Sally. Don viveu em um lar abusivo, o pai era violento, e ele age de forma diferente com os filhos, é paciente e tenta ser compreensivo. Já de Betty não se pode esperar o mesmo, ela é uma mãe-vilã por excelência e enquanto consegue lidar melhor com os meninos, vive em guerra com Sally, que só se entende com o pai. Uma rara cena de ternura entre as duas foi quando Sally menstruou pela primeira vez e assustada correu para a mãe. Betty estranha, mas não perde a oportunidade de se gabar de que a filha precisava dela e não de Megan. A maternidade é seu fardo, mas também é seu tudo. É nocivo demais que a odiosidade de Betty esteja ligada ao seu papel de mãe.
A personagem é muito odiada por seu caráter mesquinho, sem nenhuma qualidade. Eu não gosto dela, mas prefiro direcionar minha insatisfação com quem escreve o texto, que se perdeu ao transformar uma jovem mãe depressiva em uma criatura fútil que vive de aparências. Criaram uma cena desnecessária e absurda onde Betty “brincando” diz que se o  marido se quisesse estuprar  a amiga de Sally,  ela ajudaria a segurar a menina. Pra quê, meu deus? E o que dizer do episódio onde ela e Bobby vão a um passeio, o menino esquece de deixar um pouco do lanche para a mãe e ela faz ele se sentir péssimo?

5g_betty_francine
De ponto positivo que milagrosamente sobreviveu foi a amizade dela com Francine. As duas são o retrato de duas donas de casa brancas de classe média, mas suas cenas são tão universais. É uma amizade genuína, que envolve solidariedade constante, sem competições ou inveja besta. Eu conheço várias relações Betty-Francine por aí, infelizmente pelo fato do trabalho doméstico ainda ser de obrigação feminina e sempre vejo muitas das cenas de Mad Men em meu cotidiano, principalmente entre minhas parentes. Eu não sou nada sociável, mas sempre me impressiono com a relação de cumplicidade entre minhas primas e sua vizinhas, a familiaridade com a casa, a cozinha e as crianças de todas. Eu realmente gostaria que os homens assumissem seu papel em casa e na criação dos filhos, mas como a coisa ainda não é assim, não posso deixar de destacar que a sororidade feminina em termos domésticos é uma construção social de solidariedade em um mundo machista, uma força que não deve ser desprezada.

Sobre o aborto, devo dizer que a série foi covarde duas vezes. Joan fez dois abortos mas isso é apenas citado na série, bem diferente seria se de fato ela fizesse um aos olhos do público, o que não ocorreu. Ela tinha recursos, mas a culpa falou mais alto. A segunda vez que a série deu para trás foi quando Betty ficou grávida pela terceira vez, em meio a uma crise no seu casamento, aliás o casamento já estava acabando, a gravidez só adiou o final definitivo. Pode parecer grosseiro o que vou falar: eu torci e muito pela interrupção da gravidez. Tamanha foi minha empatia pela Betty. Fiquei com muita pena dela, com duas crianças pequenas, um casamento desabando ter de lidar com aquilo. Ela lançou o desejo, mas foi rapidamente convencida de que esperar para ver seria o melhor. Pelo menos deu pra contrariar aquele clichê besta de que gravidez salva casamento.  Ah, sim, me esqueci que Megan abortou também, mas nada foi desenvolvido, foi citado que ela abortou, o resto foi apenas sua angústia em falar ou não para Don. E ela não dividiu essa dor com a mãe, e sim com a vizinha e amante de Don. A mãe só aparecia para criticá-la ou dar dicas de como manter seu homem.

don-sally-ep5

Uma coisa óbvia a se destacar é que nenhum adulto é exemplar na série. Alguém poderia apontar que os pais são tão falhos quanto as mães, mas o que me interessa aqui é a representação feminina. Segundo, e problemático em termos feministas, é que os homens (e somente eles) sempre tem a chance de se humanizarem com os filhos. Don é um traste, mas é o pai heroi, e mesmo falhando com os filhos tantas vezes, há diversas cenas belíssimas dele com as crianças. Especialmente com a não tão pequena e talentosa Kiernan Kripka. Como pai é humanizado. Henry, o padrasto de Sally, gosta das crianças, é gentil e paciente. Quando Sally corta o próprio cabelo temos uma cena onde Betty fica irada e dá um tapa na menina. Tanto Don quanto Henry intervêm, e ele depois diz para Betty ser mais compreensiva, tentar entender a filha. Roger tem uma filha mimada e nojenta, mas não lhe nega nada. Jane, a jovem esposa de Roger, reclama com ele uma vez: ‘tudo o que você faz é para ela’. Nem o assassinato de um presidente o impediu de fazer o casamento da filha. Quando ele e Mona vão buscá-la de sua vida riponga, é ele quem fica , tenta entendê-la, assim como tenta levá-la. Mona desiste na primeira alfinetada que ouve da filha.

zap-mad-men-season-7-episode-4-the-monolith-ph-009
Conhecemos os pais de Trudy, mas ela pouco interage com a mãe, pena pois elas parecem se dar bem. Já o pai dela, usa o contrato que tem com Peter para lutar pela felicidade da filha. Ele deixa claro que Peter é seu investimento e deve fazer sua Trudy feliz. Quando ele e o genro se esbarram em um bordel, ele não fica envergonhado, e sim se revolta com o fato de ver o marido da sua princesa fazendo o que não deveria. O próprio Peter que é um lixo de ser humano tem uma cena lindinha com a filha. Mesmo Lane teve seu momento e é triste a cena em que ele vai receber os filhos todo animado, com balões e orelhinhas de Mickey e dá de cara com seu pai.  Aliás, cenas dos papais publicitários indo levar os filhos para passear são muitas. Podemos achar meigo, porém um olhar mais atento iria perceber que elas refletem também o fato deles se encaixarem naquela definição: “pai quando dá”.
Alguém conseguiu ler tudo e chegou cansado até aqui? Foi mal, mas convenhamos, sete temporadas e eu ainda tive que cortar muita coisa. Então fica meu convite para o próximo post, que deverá ser sobre as mulheres que trabalham na agência, e vem mais Peggy, Joan e Megan por aí, mas para falar de trabalho. Então, até lá!

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s