Wild: protagonista feminista trilhando sua redenção

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Wild (Livre) ganhou minha simpatia assim que comecei a pescar informações sobre o filme. Este ano tem se falado, cobrado (e denunciado) muito sobre as diferenças de tratamento entre homens e mulheres em Hollywood, que refletem a desigualdade que há no mundo inteiro. É ridículo o quão distantes ainda estamos em termos de representatividade e direitos políticos, então sim, vamos continuar perturbando e os incomodados que aceitem. O feminismo está longe de deixar de ter razão em existir. Nesse momento de agitação, Reese Whiterspoon (de quem sempre fui fã) me conquistou de vez. Cansada de não ter papéis realmente interessantes para interpretar, ela decidiu criar a própria produtora, a Pacific Standard ,que além de Wild foi responsável por Garota Exemplar. O “somos mais do que nossos vestidos” é algo que nunca esquecerei, aliás sua linda iniciativa #AskHerMore não deverá ser esquecida.

Wild é sobre Cheryl Strayed (Reese Whiterspoon) uma mulher que perdeu seu grande amor e entra em depressão por isso. O sentido da sua vida se perde e a protagonista não sabe o que fazer e vai se afundando, até ter a ideia de fazer uma trilha pela Pacific Crest Trail, onde ao final dela poderia encontrar sua redenção e reconstruir sua vida. Ok, mulheres sofrendo por amor é lugar-comum, e não acho que seja um mote fútil. Fútil quase sempre é o desenvolvimento destes. Mas no caso de Wild a coisa já se subverte porque o amor que Cheryl perdeu não foi o de um homem. Foi o de uma mulher: sua mãe.

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Cheryl é bastante apegada com sua mãe Bobbi (Laura Dern) , mesmo as duas tendo suas diferenças: Bobbi é sonhadora enquanto Cheryl tem mais os pés no chão. A doença a leva e Cheryl perde uma parte fundamental da sua vida. Como ela vai viver sem a mãe, se sua mãe era seu mundo, seu porto seguro? Ela anestesia toda sua dor em sexo casual e drogas, vai levando uma existência miserável, desiste de tudo, o casamento não resiste a crise. Ela não é a única a sofrer a perda de Bobbi: Leif, o irmão de Cheryl, é um personagem que dá raiva por ser o típico mimadinho da mamãe, do tipo que chega em casa e quer a comida dele pronta. Claro que Bobbi tem sua parcela culpa nisso, afinal ela é a mãe que vai toda feliz fazer a comida do filhinho. Olha, eu não pretendo ser mãe, mas esse comportamente é bem universal, né? Ah, meu filho tá crescido, mas deixa, eu ainda sou a mãe dele. Minhas duas avós são assim. Minha mãe é assim. Se eu deixasse até hoje ela tava lavando e passando as roupas do meu irmão. Interessante é que enquanto nós filhas mulheres aprendemos socialmente a sermos prendadas, nossos irmãos homens sempre tem a opção de irem se acomodando. Naturalmente as filhas ficam independentes e naturalmente os filhos ainda se atrapalham na cozinha. Infelizmente é difícil para muitas famílias, para muitos pais e mães enxergarem essas diferenciações de gênero, e acabam achando que foi naturalmente que fulano nunca conseguiu aprender a fazer coisas de casa direito. Cheryl se incomoda com isso mas tadinho do garoto. E sim, Bobbi adoece e Cheryl é quem fica mais ao seu lado.

Cheryl é uma personagem assumidamente e positivamente feminista! Falo positivamente porque óbvio que feministas são sempre mal vistas e ridicularizadas pela mídia (tipo em Community). Eu adoro a cena em que o repórter pergunta se ela é feminista, tava meio na cara que ela era, mas ouvi-la falando com todas as letras foi muito legal. E mais legal ainda foi a reação do reporter em dizer que bacana, adoro feministas! E Wild é um filme feminista. Os perigos e medos que Cheryl passa durante sua trilha são exclusivamente pelo fato de ser mulher, o filme não culpabiliza a personagem, como muita gente poderia fazer, afinal ela estaria assumindo o risco de caminhar sozinha. Nada disso. Uma das cenas que me deixou aflita foi quando Cheryl pede ajuda a um trabalhador local, ela está suja, sem comida, vulnerável, e ele relutante decide ajudá-la . Mas Cheryl, sempre fica com um pé atrás com sua carona e mente para ele dizendo que tem um marido que estaria lhe esperando. No final das contas, era só o jeito do cara que era estranho mesmo, ele a leva para casa e ele e a esposa lhe oferecem comida e banho. Na carona de volta, ele pergunta se ela mentiu sobre ter um marido e Cheryl envergonhada diz que sim.

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Ele não fica ofendido: não, eu compreendo. É esse tipo de empatia que tá faltando nos homens de bem que se ofendem quando oferecem gentileza e recebem desconfiança. Porque homens sabem muito bem os perigos e medos que mulheres passam, mas preferem choramingar: credo, eu não sou assim!, do que ter o mínimo de compreensão. Cheryl interage com vários outros mochileiros e adorei a reação dela ao ver outra de seu gênero: uma …mulher, eba! Hahaha. Nem todos os caras que Cheryl encontra são respeitosos com ela, há uma situação de perigo real em uma cena que me fez temer por ela e odiar e muito essa mania dos homens em acharem que mulher sozinha é presa fácil. Outro ponto interessante do filme é que Cheryl e o marido se separam, sabem que sempre se amarão, mas preferem levar vidas separados, seguir em frente. Mesmo com a mágoa de toda a turbulência e traições sucessivas da esposa, Paul (Thomas Sadoski) não odeia Cheryl. As tatuagens iguais que fazem no dia do divórcio têm um belo (e estranho à primeira vista) significado: eles querem ter algo que possa uni-los para sempre ainda que não fiquem mais juntos. E ele sempre escreve para ela.

Uma coisa que não me sai da cabeça de jeito nenhum é o óbvio: Wild passou meio underground, foi muito elogiado mais não recebeu tantas indicações ou premiações, agora imagina se o filme fosse protagonizado por um homem? Não tenho dúvidas que teria mais destaque pelos críticos, seria ovacionado e teria um monte de textão falando sobre o significado filosófico-existencial da narrativa, falando qualquer coisa sobre o significado da vida para o homem (homem quer dizer, ser humano, homem e mulher). Filme com mulher, aí não tem o mesmo apelo. Filme sobre um homem tentando se encontrar: é sobre todos nós. Filme com uma mulher tentando se encontrar é só sobre mulheres, vixi será que é bom? Infelizmente esse é o pensamento machista vigente. Mas confesso que Wild não poderia ter um protagonista masculino e ter a mesma essência, afinal é um filme que pincela o tempo todo as implicâncias de uma mulher em um ambiente que pode ser ameaçador apenas para mulheres. E deixei para falar por último porque só lembrei agora, Wild é baseado na biografia de Livre – A Jornada de Uma Mulher Em Busca do Recomeço de Cheryl Strayed. Reese leu o livro e contatou Cheryl para poder comprar os direitos dele, ela realmente se empenhou para realizar o filme e o resultado ficou maravilhoso, até por ter a direção de Jean-Marc Vallee (Clube de compras Dallas) . Eu sigo desejando todo o sucesso do mundo para a Pacific Standard, e torço para que filmes com mulheres protagonistas ou mesmo mulheres diretoras como a maravilhosa Ava Duvernay tenham mais reconhecimento, afinal é preciso continuar a luta por igualdade, que infelizmente ainda está longe.

ps: enquanto vasculhava a net, encontrei esse post curtinho e interessante com dicas para quem quiser se aventurar como mochileira, com lições aprendidas no filme.

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