Agent Carter: uma linda série que é menos feminista do que as pessoas pensam.

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É complicado, pois quando reflito, percebo que quase tudo que eu gosto na Peggy é exatamente aquilo que eu considero problemático e nada feminista do ponto de vista crítico. Não que isso seja o fim do mundo, é possível gostar de uma coisa e pensar ao mesmo tempo. Certo, estamos em junho, perdi o todo o hype, mas não queria passar em branco uma série tão legal (e devidamente renovada) e meter o bedelho em alguns pontos que considero equivocado sobre o “ teor feminista” da série.

Peggy Carter surge no primeiro filme do Capitão América, onde ela é uma agente séria e competente, inclusive tem uma matéria legal do Mary Sue sobre as “Peggys” da vida real. Porém, não pude deixar de notar que o grau de poder e liberdade que Peggy tem no filme é irreal para a época na sua condição de mulher. Mulheres também foram para a guerra, só que não com o mesmo nível de liberdade e cargo que Carter. Mas não reclamo dessa licença histórica, é só uma observação. Eu adoro Capitão América – O Primeiro Vingador, não curti muito o Soldado Invernal (como pode?) , mas Steve Rogers é vida. Só que não gostei nada da Peggy. O motivo é óbvio, ela só está lá para ser a namoradinha do herói, é limitada demais e again usam a fórmula da mulher durona de maquiagem e de salto alto. O filme é uma desgraça em termos de representatividade feminina. Duas mulheres têm destaque: Peggy, e a Natalie Dormer que só está lá para uma cena deprimente. Assim sendo, quando anunciaram que ela teria uma série só para si, fiquei dividida entre a birra que sentia pela personagem e feliz por ver uma mulher ganhar espaço. Não acompanhei o processo de produção e mal sabia da existência de um spin-off, aliás da relação quadrinhos vs adaptação não sei de nada! Com a estreia chegando comecei a torcer pela série, embora não iria assistir. Só que a empolgação geral, entre feministas e não-feministas, atiçou minha curiosidade e lá fui eu assistir. Engraçado é que empatizei de cara com a Peggy, mas gente eu nem gostava dela???

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A premissa é bem simples: após a guerra, Peggy, assim como muitas mulheres, foi removida de seu cargo e mesmo com suas habilidades, é empurrada para uma posição subalterna e se vê infeliz com a nova condição. Apesar de competente, ela é menosprezada pelos colegas de trabalho que são asqueirosos e incompetentes. Sua participação ativa na luta contra os nazistas é esquecida, ao contrário de sua relação afetiva com o Super Soldado, envolvimento que lhe persegue não apenas no trabalho, como ela vira inspiração para a mocinha frágil de uma novela de rádio. Quando Howard Stark é acusado injustamente de conspirar contra os EUA supostamente por estar negociando suas armas aos inimigos, ele procura Peggy, não para um fondue, mas para ajudá-lo a provar sua inocência. E é limpando o nome de Stark, recuperando as armas que o gênio e idiota (amo Stark-Pai, odeio belicionistas) criou, ela vê que pode provar seu valor. A agente quer fazer tudo sozinha, mas terá a companhia de Jarvis, o mordomo que quandonão estásendohumilhadoporela, vai lhe dar uma mãozinha.

Hayley Atwell está mais do que de parabéns no papel. Ela tem um carisma, uma força na personagem que faz a gente torcer muito por ela. Eu não gosto muito do clichê durona que chuta bundas, mas é difícil desgostar de uma agente tão fantástica. E sim, ela é encantadora demais para os olhos. E Jarvis? Gente o James D’Arcy é um parente distante do Benedict Cumberbatch? As semelhanças são assustadoras! E claro, como seu ‘parente’, ele tem um charme estranho e meio desajeitado. No caso de Jarvis, bem desajeitado mesmo. Ele e Peggy formam uma dupla maravilhosa de assistir! E enquanto Peggy sai atirando, esmurrando os bandidos, Jarvis é um marido-amélia. Fofo, mas não se anime que as cricríticas tão lá em baixo. Sousa é o único dos agentes-machos que respeita Peggy e sente algo por ela. Durante a guerra perdeu uma das pernas, e ele também tenta provar seu valor. De mulheres além de Peggy, temos Angie que é uma garçonete que sonha em ser atriz (Penny, é vc?) e é amiga de Peggy; E Dottie, uma vilã, treinada no Programa Viúva Negra, sim, o mesmo que futuramente dará origem ao mesmo treinamento da nossa querida Natasha Romanoff.

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Melhor dupla ❤

Agent Carter é uma série de ação que soube dosar bem os mistérios, esfriou um pouquinho antes da reta final, mas é só elogios. Um dos pontos altos são as cenas de luta e que cenas maravilhosas! Alguém poderia argumentar que as cenas de Peggy derrubando um monte de caras são forçadas demais porque uma mulher nunca conseguiria fazer aquilo. Olha pessoas, Peggy é uma heroína, tem várias habilidades, cês acham que ela seria fraca na hora do vamo ver? Eu acho convincente, porque se formos pensar, ninguém, nem homem ou mulher tem as habilidades de luta desses agentes da vida (estou falando dos que não tem super poderes) então o céu é o limite.

Agora, o primeiro ponto muito irritante (pra mim, já que muita gente tá elogiando) é a insistência na ‘feminilidade’ da protagonista. O figurino de Carter é muito bonito, agora de jeito nenhum acredito na falsa mensagem ‘viu, é possível ser feminina mas forte’. A mensagem óbvia é mais ‘sou forte, porém feminina’. O batom super marcado, as ceninhas domésticas, o artificio de usar ‘coisas de mulher nas missões’, as unhas e cabelo sempre impecáveis para quem sempre está correndo entre uma missão e outra. O tempo todo, a feminilidade da agente é ressaltada. Ué minha gente, se sabemos que ela é competente, se dizemos não nos importamos em uma mulher de batom e salto alto chutar bundas, porque a insistência? Eu não compro isso de jeito nenhum. As primeiras cenas da série alternam imagens de Peggy, ainda no filme Capitão América, em ação, atirando, lutando, enquanto mostra a protagonista no presente, em situações domesticas que ressaltem seu lado feminino. Essa primeira cena define o que os roteiristas planejam para Peggy: a mulher durona que tbm é mulherzinha, a mulherzinha que tbm sabe ser durona. Dois protótipos de personagem feminina que cabem em uma só.

Peggy sabe atirar mas precisa convencer a audiência que pode fazer isso e ser uma mulher comum (de acordo com o senso comum), assim como pode aparentar ser uma mulher comum e ter algo de especial para oferecer. Há uma dificuldade em criar personagens femininas que fujam disso. A femme fatale, a mulher sexy, séria e com uma arma na mão, está longe de ser novidade. E é preciso lembrar que esses elementos são estereótipos de um determinado ponto de vista. Peggy é uma visão masculina sobre como uma heroína deve ser, e digo isso, não somente (embora relevante até certo ponto) pelo fato de ter sido criado por roteiristas homens, e sim por um pensamento, lugar-comum, de clichês masculinos sobre como as mulheres são ou deveriam ser. A graça de Agent Carter é uma mulher ser forte sem abrir mão do seu lado ‘feminino’. Não tem nada de empoderador nesse discurso. É como aquelas reportagens de tv que quando falam sobre mulheres trabalhando em profissões ‘masculinas’, tem sempre uma parte para falar da vaidade. Skatista, pedreira, delegada: ‘são competentes sem deixarem de ser femininas’, e saem mostrando esmaltes, batons, o que essas mulheres fazem para manter a vaidade apesar da profissão. Há uma necessidade de provarem que não são masculinizadas. Me diz onde isso é feminismo?

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Feminismo, vc está fazendo isso errado….

E logo na estreia, desgostei e muito ao ver Peggy usando a beleza e o corpo para seduzir, reforçando a ideia de que essas são as mais infalíveis armas de uma mulher. Ela não só apaga o cara com um beijo, como dá a entender que já usou seu batom Sweet Dreams outras vezes: “esse apagou rápido” (ou ela disse que ele demorou, não lembro direito). Não tem como achar alguma subversão nessa sequência. E a série feminista do ano encerra o primeiro episódio com o trope women in refrigerator, matando a colega de Peggy, apenas para que a agente não deixe barato mesmo sobre a conspiração que está se metendo. E claro, a morte serve para forçar uma humanização da personagem sempre perfeita.

E uma coisa é viver em um ambiente machista, outra é aparentemente ser a única mulher desse mundo (mundo mesmo). Não existe feminismo sem mulheres, assim no plural. Porque Peggy deveria ser a única mulher? Poderiam ter colocado pelo menos mais uma ou duas agentes também desprezadas para que dividissem as cenas com ela, passaria a ideia de irmandade, sororidade. Seria muito mais empoderador do que colocar uma única mulher em meio a um monte de idiotas incompetentes. E claro, a mulher é a melhor de lá, esse ser evoluído… e único. Angie é tão interessante quanto Peggy, mas colocar as duas em uma sei lá, um lugar que abriga mulheres adultas como se estivessem em um convento? Oi? Seria bacana se a série mostrasse um lugar onde mulheres dividem o mesmo espaço, trabalham se divertem, interagem, não vejo avanço nenhum naquele ‘reformatório’. A sociedade daquela época sem dúvidas era mais conservadora que a nossa, mas costurar uma colcha de estereótipos da época e jogá-la na série é uma jogada superficial, inclusive que invisibiliza a autonomia que as mulheres tinham naquele período. Porque a condição das mulheres americanas sem dúvidas era muito mais diversa e até mais livre do que a série passa.

Outro ponto: a protagonista roboticamente perfeita. Peggy acaba sendo diferente demais das outras mulheres, e nem na década de 40,50, nem em 2015 é o tipo de personagem que as garotas verão e vão dizer: nossa, ela é tão eu! O perfeccionismo, aliado a falta de camadas da personagem a colocam em um patamar de super fodona inalcançável. Eu não vejo um desenvolvimento nítido das emoções dela, e os poucos que tem não me convencem. O roteiro precisa relaxar mais, Peggy está all the time pronta para o combate. Não existem outras Peggys, porque o objetivo é mostrar que ela é melhor que os homens e repito não há interesse em um elenco feminino decente de apoio. E claro, Peggy, Dottie e Angie têm em comum o fato de que usarão o seu charme feminino em algum momento.

Uma dúvida, já que a série foi renovada e acho que muitas vão me interpretar mal, porém lá vai: Peggy terá algum interesse romântico na segunda season? COMO ASSIM SUA FEMINISTA TRAIDORA, ACHA QUE MULHER SÓ SERVE SE TIVER UM HOMEM?

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Calma gente que eu vou desenvolver:

Em nenhum momento vou criticar os sentimentos dela por Roger como já li em alguns blogs feministas, ela está de luto por ele, não vejo problema nenhum nas cenas em que ela pensa no amado. Tá, mas outra coisa que eu temo e que não seria surpresa é se Peggy for a protagonista fodona e assexuada. Não se trata de arranjar um homem para ter razão de viver, ou virar alguém com uma suposta ‘sexualidade livre’ porém vazia. O que ocorre é que existe uma dificuldade meio que universal em lidar com sexualidade feminina. Um Oliver Queen da vida pode ter a sua coleção de conquistas e continuar o Arqueiro sombrio que é, mas uma personagem feminina ter um interesse sexual (nem tô pedindo ‘amor’) é tabu. A melhor saída é assexuá-la, torná-la inalcançável em todos os sentidos. Porque mulheres podem viver sem sexo, homens não. O prolongamento do luto poderia ser uma desculpa, mas pensem: se Peggy fosse um homem, poderia muito bem ter um affair logo na primeira season e ninguém acharia uma desgraça. Por ser mulher, Peggy sem dúvidas seria rejeitada pela audiência caso se permitisse gostar de alguém. Sem querer pegar no pé do Ollie, mas lembrem-se que Oliver viu Sara morrer, estava namorando Laurel (passou cinco anos zoiando pra foto dela) e isso não o impediu de ficar com a Shado na ilha. E seguiu a vida. Mulheres não tem essa liberdade.

Não quero e nem vou escalar uma lista gigantesca de qualidades que uma personagem feminina deveria ter. Mas repito: elas precisam ser humanizadas e não reduzidas a armas inteligentes e sem emoções. Essa visão bad-ass com uma arma na mão em pleno 2015 é datadíssima. A dualidade na relação dela com Jarvis é mais um exemplo da farofada: se menina é rosa e menino é azul, então vamos botar uma menina de azul, e um menino de rosa. Tipo isso, Peggy é especialista em armas, Jarvis é uma dona de casa preocupada com a janta. Um reforço muito ensaiadinho. Sobre a piada lá sobre o Joe Dimaggio, eu não sei se a Peggy mentiu ou falou a verdade sobre o jogador, mas achei ofensivo de qualquer forma. Há um limite para se fingir de burra ou servil para conseguir o que quer. Agent Carter erra e acerta nesse aspecto, e aí que entra muitos momentos que eu amei na série, e se dosados poderiam fazer a serie melhor. A cena do café é uma delas. Os homens subestimam Peggy, ela sabe disso, e usa o próprio machismo dos colegas a seu favor. Acho bem realista. Machismo tem nuances, mil estruturas e formas de atuação. Muitas mulheres usam ak, acolá estruturas machistas a seu favor, em nome da sobrevivência. Masssssssss, a relação de troca entre a mulher e o machismo sempre será injusta: afinal a mulher pode até ter suas metas facilitadas, mas para isso terá de reconhecer publicamente sua posição de inferioridade. A cena em que Peggy dá uma de burra para salvar a pele de Jarvis ilustra bem isso: ela o salva, mas se sacrifica. E Jarvis sequer deu uma palavra de apoio (ainda que ela fosse recusar claro). Achei horrível a cena, assim como Peggy ser forçada a manter segredo sobre seu sucesso em recuperar as armas de Stark , só que as cenas injustas reforçam empatia para a protagonista.

Pelo bem, pelo mal, Hayley Atwell,que mulher!

Pelo bem, pelo mal, Hayley Atwell, que mulher!

Apesar das minhas críticas, sabe porque eu e o público amamos AC? Porque Peggy é ótima, tem muita presença na tela e abraçou o protagonismo pra si de forma que é impossível não se sentir envolvido por essa mulher. Aí Junta ela e Jarvis, uma dupla que em três episódios já damos como inseparáveis, um roteiro de ação muito bem bolado e pronto! Sucesso.E que venha mais Carter e Jarvis! Eu não falei quase nada sobre o enredo, vilões e tals, mas precisava botar por escrito minhas urgências nas questões de gênero. É uma série que rapidamente esta sendo relacionada com feminismo de forma equivocada, embora seja o modo Marvel de se adequar ao mundo e mostrar que não é sexista, pois tem uma mulher protagonizando uma série só sua. Pra quem está na luta há anos, sabe que isso é superficial demais, mas para quem está por fora é bom refletir um pouco.

Ps: E falando em reflexão, eu não poderia deixar de pelo menos citar a falta de representatividade racial na série, foi cobrado e espero que na segunda temporada consertem isso. Mas o texto de hoje já ficou enorme, mas prometo que esse aspecto não será esquecido.

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