Whitewashing: sobre White Canary, Tilda e Aloha.

Maravilhosa, mas né...

Maravilhosa, mas né…

E eu mal prometi ficar de olho no whitewashing da White Canary e já me surgem mais dois casos para engrossar o caldo. Dois? Bem, os dois mais gritantes do momento, mas se formos procurar mais a lista aumenta rápido. Assim como a indignação mais do que justa contra esse tipo de absurdo. Eu queria deixar a parte da Canário em um post só porque tem algumas observações que só lendo BirdsOfPrey para ter uma opinião mais segura, até comecei a pegar os quadrinhos, mas o tempo vai passando e as coisas ficando pendentes. Antes de tudo, o que é whitewashing? De forma bem simples, é o embranquecimento de personagens não-brancos (#cêjura?), quando deveriam ser interpretados por negros, latinos,asiáticos ou mestiços, só que são simplesmente substituídos por gente branca. E a palavra pode ser nova para você, mas o processo é bem antigo. E o suposto mimimi pra você que tá incomodado, não é novo também, mas com redes sociais, minorias têm o poder de fazer um barulho ainda maior e sim, com toda a razão.Se você é do time que acha que um personagem negro ser interpretado por um branco é a MESMA coisa que um personagem branco ser interpretado por um negro, calma, que estou preparando um post só pra desenhar que em um mundo desigual, estratégias para promover a diversidade não deveriam ter a preocupação em incluir quem já está em evidência. Da minha parte, sim, eu nunca fui grandes observadora disso, mas com o tempo, leituras, e no caminho certo, passei a ampliar minha percepção das escolhas de cast e o impacto que isso tem no público que o consome. Lembro que fui ler um post sobre a White Canary e achei um show de incoerências na escalação do elenco em Arrow. Fiquei passada, desconfortável e envergonhada com minha ignorância sobre o assunto. É um tema espinhoso, mas é preciso cutucar feridas sim, senão nada sai de lugar. Pensamos em racismo muito menos do que deveríamos, e transformamos nossas ideias em práticas, menos ainda.

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White Canary. A White Canary que ironicamente não deveria ser branca, só pode ser piada, né? Sabe, quando eu me lembro da minha loucura quando assisti o trailer de Legends Of Tomorrow e pirei com a Caity Lotz, fico meio com vergonha. Não, não me arrependo e quero muito ver a série, mas meu desconhecimento sobre a personagem dos quadrinhos me traiu. Foi alguém no twitter que alfinetou a escolha, fiquei intrigada e caí nesse texto aqui. Não só a introdução da White Canary não era tão surpresa, como o texto já tinha umas semanas, a reclamação era meio antiga, e como fiquei de longe do processo de produção da série, passei bem batido. White Canary era vilã dos quadrinhos Birds Of Prey, asiática, e pelo visto terá sua identidade toda remexida para adequar Sara Lance ressuscitada na série. Sara por si só já era uma personagem original, poderiam ter continuado com a ideia.É chato porque quando você põe a mão na consciência e percebe que uma atriz asiática deixou de ser contratada dá um desânimo; que uma identidade étnica foi limada para ceder lugar a uma atriz branca, o sentimento de vergonha é grande. E Arrow, de onde Sara veio, escorregou mais um pouco. Além de White Canary, temos Sin, que eu amo, que originalmente era uma menina asiática adotada por Dinah, e bem, teve sua origem modificada na série. Bex Taylor-Klaus deu vida a uma Sin magnífica (e que podia ter mais destaque), mas não deixa de ser um saldo negativo em termos de diversidade, e as evidências apontam que a mesma situação se repete com a mãe do filho do Oliver.

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Doutor Estranho. Desse personagem sei muito pouco. Só sei que vou morrer achando que Benedict Cumberbatch fazendo o doutor é piada-pronta. Porque se tem um ator que combina com a palavra estranho, este é Benedito (p os íntimos). Certo, um estranho charmoso e talentoso, mas que não é objeto de interesse do post. Mais uma vez via twitter é que fico sabendo dos rumores de que Tilda Swinton está sendo sondada para participar do filme, fazendo um papel grande: O do Ancião, personagem mentor do Doutor Benedito. A obviedade está no fato de que o personagem masculino será interpretado por uma mulher. Então, a presença deTilda,seria uma revolução feminista, um passo ousado e um tapa na cara do machismo. Uma mulher incorporando uma personagem de destaque, atuando como poderosa mentora do protagonista que com seus poderes místicos iria guiar o Benedito em sua jornada e dividir sua sabedoria milenar. Tá, parei. O primeiro problema como bem aponta o Reappropriate é a própria construção do personagem Ancião: um asiático que vai ensinar artes marciais e magia secreta-sagrada-milenar para o aprendiz branco. É quase um rito de passagem o personagem branco aprender a tal sabedoria asiática antes de cair no mundo. Esses estereótipos das culturas orientais é lógico, racista e fetichista. Lembra muito da fala do Senor Chang em Community quando se apresenta para a turma

É a visão comum e ignorante que perpetuamos dos asiáticos. Eu não posso julgar o quão ofensivo a apresentação do personagem é nos quadrinhos, pois não o conheço, e o mais obvio, não sou asiática, não falarei sobre uma vivência que não é minha, mas tudo na vida dá pra fazer uma reflexão. Inclusive o personagem pode ser bom e assertivo, mesmo tendo um molde clichê. A coisa é mais complexa do que pensamos. Ninguém tá falando para censura, queimar os quadrinhos, como os nervosinhos gostam de falar.

Amo Tilda, amo mesmo, e sim, ela é linda, ninguém me convence do contrário. Magoei um pouco quando vi o nome dela na listinha do Free-Polanski, porém não quero e nem vou negar que meus sentimentos por ela, criam certa complacência. Só que é difícil ignorar essa. E tal qual no caso da Canário, eu também dei pulinhos com a notícia! Em minha defesa, eu realmente não conhecia ambas as personagens (e isso está sendo corrigido). E graças ao incansável ativismo que luta para que essas trocas não sejam ignoradas é que me interei do assunto. Foi um belo puxão de orelha em mim, mas é isso, estou aprendendo e sem dúvidas, estarei mais atenta a essas questões.

Claro que tem a turma que acha que é mais empoderador colocar uma mulher para fazer um personagem originalmente masculino do que focar na questão racial. Eu tenho que discordar e dizer: feminismo, meça suas branquices!! Porque a invisibilidade racial ainda é ponto negativo a se destacar do mainstream feminista e não dá para mudar isso aceitando que não-brancos continuem a serem diminuídos em favor das nossas causas. Porque se enquanto feminista eu me recuso passar pano na misoginia em movimentos negros ou LGBT, é porque certamente não aceitaria o contrário, certo? A escolha de Tilda dá um enorme passo para frente e outro enorme para trás. Se queriam fazer uma inversão de gênero, porque não pensaram em uma atriz asiática? Não existem atrizes asiáticas ou mestiças? É tão difícil achá-las? Ou será que é porque no auge do pensamento branquista vigente, ninguém percebe que estão mudando as cores de uma personagem? Tenho certeza que se trocassem um personagem masculino branco por uma atriz negra todo mundo iria notar esse inconveniente. Mas né?

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Aloha. É com certa preguiça que venho falar de Aloha, o novo filme estrelado por Bradley Cooper, Rachel McAdams e Emma Stone.Só de ver o Cooper a preguiça já vem, ele parece gente boa, o moço, mas não me empolga como ator, então vamos lá: como diabos um filme que se passa no Hawaii, um lugar com maioria da população não-branca, tem esse trio lindo, certo, mas totalmente caucasiano?

Aloha é mais um daqueles filmes onde há um interesse de se vender as belezas do Hawaii, promover as paisagens, a cultura, ás custas de invisibilizar o povo. Mesmo recurso do meu querido Como se Fosse a Primeira Vez, onde os nativos são comicamente exóticos, com exceção da linda Drew Barrimore. É tragicômico como muitos filmes e novelas gostam de valorizar o aspecto turístico de suas locações, exploram ao máximo imagens deslumbrantes, fazem de si, cartões postais daquele lugar e com a mesma autoridade, descaracterizam as pessoas que ali vivem, ‘adequam’ sua imagem e comportamentos para torná-los mais agradáveis ao público, seja ridicularizando-os, ou mesmo trocando cores, ou na saída mais confortável, colocar um cast principal bonito e rentável e inseri-los naquela realidade.É engraçado o direto falar e defender a diversidade do Havaí quando o trio principal é branco. Ele fala em orgulho da mistura, bláblá,blá, e que foi tudo baseado em pessoas reais, mas não se toca no fato de que as características étnicas de seu cast de longe correspondem as pessoas verídicas de quem ele fala.

Ele, assim como vários outros diretores, acha que tudo não passa de um ‘mal entendido’, que sua ideia foi mal interpretada e ele, coitado, não sabia da repercussão negativa que um filme tão bem intencionado teria por causa desses comentários apaixonados. Eu realmente acredito que essas pessoas nunca tenham a noção das repercussões, afinal estão acomodadas demais em seus privilégios brancos, classe média alta e pensando em possibilidades sempre limitadas de cast, quem são os astros mais rentáveis? Por exemplo. Abrir a cabeça ou espaço para outras possibilidades de atores e cores é chato. Eu penso que se você não consegue conciliar seus interesses comerciais (o diretor tem todo direito de pensar em atores que chamarão público e dinheiro) com o aspecto ético de respeitar quem será representado por seu projeto, amigo é melhor nem fazer.

Ai, mas a personagem é só um pingo chinesa-havaiana ninguém ia reparar!.Aff, mas se a questão da identidade é algo importante para a personagem e o próprio diretor fala sobre levar essa questão para o filme, como porra, ele não acha uma mestiça para o papel? O autor do excelente thenerdsofcolor.org/ conseguiu pensar rapidinho em vários nomes, mas né, como ele mesmo diz: pra quê contratar atores mestiços quando se há tantos atores brancos precisando de trabalho!

Ok, só para encerrar, reparem que as personagens citadas no post são todas femininas. Gente, por freios no racismo não dá carta livre para ninguém vomitar misoginia em cima das atrizes. Uma coisa não justifica a outra. De homens eu até espero esse tipo de reação, mas ver mulheres, e pior feministas fazendo isso, olha, não dá pra aceitar mesmo.O foco acaba sendo as vadias brancas do que aqueles que as contratam (todos homens), pensem nisso. Certo, seria excelente se elas tivessem um tiquinho de consciência sobre essas questões, mas quem produz e paga, certamente tem mais poder e responsabilidades do que quem recebe o roteiro.

ps: mas gente, tava editando o post, e olhem aqui, nova polêmica, envolvendo, surpresa! Adam Sandler! aliás o nome dele já tá circulando em outra. Tá foda, viu? Entre mortos e feridos e culturas e pessoas sendo ridicularizadas, será mesmo que o problema está em quem reclama?

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