Koe no Katachi: feridas abertas, amizades e recomeços

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Descobri Koe no Katachi (~Uma Voz Silenciosa~) enquanto procurava por Arslan Senki e cai nesse link, lembrando que ambos foram traduzidos pela Kyodaiscan. Eu já tinha ouvido falar desse elogiado mangá e sabia que se tratava da amizade de um delinquente com uma menina surda, mas era só o que eu tinha. Como são apenas sete volumes, baixei tudo e quando comecei a ler não parei mais, fui me comovendo, me apaixonando. Koe no Katachi é material obrigatório para todas as idades, especialmente, óbvio, adolescentes. E o mangá, que é shounen (de autoria feminina, a novíssima OOIMA Yoshitoki) tem um número grande de personagens femininas, todas com importância e que conversam entre si. Passa fácil na Bechdel Test. E mesmo com tantas garotas de destaque, nada de fanservice, nada de calcinhas e nada de todas as meninas terem uma queda pelo protagonista. É um mangá inclusive que podemos destacar questões de gênero como o passado da mãe de Nishimiya, ou a irmãzinha se passar por garoto para proteger a irmã do bullying. Interessante é que a mesma, não se dá bem com a mãe, mas ambas precisaram se endurecer para sobreviver na vida. 

Ishida Shoya é um garoto do fundamental, enérgico e cheio de ideias malucas/maldosas que executa com seus amigos; é um garoto levado, sem limites, cuja paixão é ‘vencer o tédio’, sempre inventando desafios, como pular de uma ponte, e claro, praticar bullying com e nos colegas. Ele mora com a mãe e a irmã mais velha, irmã esta que nunca aparece seu rosto, apenas jogada de uniforme e sempre recebendo vários namorados, ao que parece sua própria maneira de vencer o tédio. A mãe deles é cabeleireira, gentil e atenciosa, porém totalmente complacente com a vida que os filhos levam.

Ele se sente entediado com sua atual rotina, sem novos desafios, até que sua turma é avisada de quem receberão uma nova colega de classe. Chegado o dia, a novata se apresenta como Nishimiya Shouko, ela escreve seu nome no caderno e revela a todos que é surda. O professor a manda sentar na frente de Ishida, e é quando o garoto tem uma nada saudável epifania: Nishimiya, a garota surda, torna-se seu novo desafio, a cura para seu tédio, ele a observa atentamente para poder usá-la da melhor forma possível para exercer suas maldades. A partir daí, a vida de Nishimiya torna-se um inferno, com Ishida fazendo experimentos com ela, a cercando, testando e perseguindo.O resto da turma tenta acolher Nishimiya, embora não impeça Ishida de praticar bullying contra ela. Pequenos ajustes são feitos na turma na tentativa de incluí-la, o que acaba gerando incômodo nos outros, e Ishida, que a essa altura já levou várias advertências por perseguir a menina, começa a odiá-la por achá-la um fardo para todos, a causa de todo o mal que a turma estaria passando, e intensifica as humilhações.

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Sahara Miyoko um garoto quieta e gentil, se voluntaria para aprender libras e assim facilitar a comunicação de Nishimiya com todos, mas a ideia é mal vista, e ela é hostilizada pelas outras garotas até que desiste de frequentar as aulas. Kawai a representante de classe, bonita e responsável, finge impedir os maus tratos a Nishima, ao mesmo tempo em que posa de educada e vítima. Outra garota de destaque é Ueno, amiga de longa data de Ishida, de personalidade difícil, egoísta, vive implicando com ele e também pratica bullying em Sahara e Nishimiya. Após muitas humilhações, a mãe de Nishimiya exige que a escola tome alguma atitude, e o professor dá um sermão na turma. A denúncia causa desconforto e vergonha na classe, onde todos resolvem tirar o corpo fora sobre os abusos que a garota sofria e se concentram em jogar a culpa no principal mentor: Ishida. Ele é rapidamente isolado, e de agressor vira vítima: apanha dos antigos amigos, tem suas coisas roubadas, a mesa sempre rabiscada com insultos e ameaças (e ele vai descobrir que os xingamentos já eram feitos muito antes de Nishimiya ser transferida) e recebendo desprezo até do professor, que diz que ele merece tudo aquilo. Ishida vai sobrevivendo até chegar ao Ensino Médio e mudar de escola, onde tem a esperança de ter uma nova vida, porém ao chegar lá, alguns antigos colegas de classe, espalham que ele sofria bullying, era esquisito e rejeitado, o que afasta os novos colegas.

Decidido a não se deixar abater, ele vai levando uma existência apagada, quieta, e embora sofra (mas não admita) com o desprezo alheio, ele tem dentro de si a conclusão de que merece pagar pelo que fez com Nishimiya, e que suas ações o colocaram naquela posição. Chegado ao último ano, sem nenhuma motivação para continuar a viver, ele decide se suicidar. Monta um plano, junta dinheiro para deixar para a mãe, vai se desfazendo de suas coisas, e tendo como último objetivo reencontrar Nishimiya e pedir perdão por todas as coisas ruins feitas. Ele até aprende Libras para poder se comunicar com ela corretamente e chegado o grande momento, seis anos após o ultimo confronto, Ishida vai até ela, disposto a consertar as coisas. Ao vê-lo, Nishimiya, foge. O que seria apenas um reencontro antes de executar seu plano acaba se prolongando: novos e antigos amigos vão se juntando aos dois, coisas ditas e não-ditas no passado deles vão surgindo, e Ishida vai se dividindo entre a vontade de viver com Nishimiya e os novos amigos, e a grande culpa que sente pelas coisas horríveis que fez.

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Koe no Katachi é belíssimo. É uma pena que eu seja incapaz de botar em linhas o tamanho da beleza desse mangá. O primeiro volume é mais pesado, onde vemos todas as humilhações que Nishimiya sofre, e depois com Ishida. É um mangá sobre traumas, abusos e redenção. E também sobre amizade e amadurecimento. Através do olhos de Ishida vamos vendo o crescimento e as mudanças (ou não) de cada personagem daquele tempo sombrio onde Nishimiya sofria e a passividade dos outros, cada um que vai retornando ao convívio de Ishida, cada uma com seus próprios traumas e superações, e com exceção de Ueno, com a vontade de fazer diferente.

Um dos pontos mais positivos do mangá é fato de Ishida ter amadurecido longe de Nishimiya. Histórias onde o valentão é ‘consertado’ pela mocinha gentil são muito comuns, e eu sinceramente detesto. Elas acabam reforçando aquela nociva ideia patriarcal de que garotas podem mudar garotos, basta serem compreensivas, amorosas e de brinde, aguentar os abusos destes pobres desajustados e incompreendidos. Esse tipo de mensagem é muito perigosa, mas infelizmente é comum, e não apenas em mangás.Já KnK, tem o mérito de não fazer uso nem disso, nem do bullying que Ishida sofre, como ferramentas de construção do seu caráter. É sozinho, por si mesmo, que ele vai se conscientizando de seus atos, se arrependendo e melhorando. É interessante como Ishida quer e ao mesmo tempo não percebe, que ele mudou. Ele sabe que não é mais aquele cara, mas tem medo de estar se escondendo sob uma máscara de bom garoto. Esse conflito de sentimentos, o esforço sincero para ajudar Nishimiya e ser digno de ser amigo dela são momentos engraçados e tristes ao mesmo tempo.

GV

Nishimiya é a típica personagem meiga e passiva até demais, sempre querendo ser amiga e sempre se desculpando. Isso gera claro, bastante empatia para com ela, mas ela poderia ter uma pouco mais de poder de reação. Nishimiya é do tipo que vai sofrer muito, mas não vai odiar quem a agride, e guarda toda a sua dor para si. Ela se culpa por perturbar qualquer ambiente que frequente, e por isso, aceita as agressões que lhe são impostas. Aí, tem um aspecto negativo do mangá, porque ao contrário de Ishida, ela não consegue juntar forças para si. Ela se sente um fardo, o sentimento vai crescendo e vai empurrar o mangá para o seu final.

Outro ponto de incômodo é a mãe de Ishida. Ela faz vista grossa para as coisas que os dois filhos fazem, não parece se incomodar, é aquela personagem materna que sempre diz coisas bonitas e tals, mas se olharmos mais de perto, ela é complacente demais, apesar de saber (pois a escola lhe avisa) dos absurdos que Ishida faz contra a colega de classe. E a irmã de Ishida, Aneki, que não é aprofundada, mas sabemos das coisas por uma frase e outra, não vai a escola para poder aproveitar o tempo com seus muitos namorados, engravida (de um brasileiro) e depois dá no pé, abandona a filha, e nema mãe , nem Ishida comentam o assunto com o mínimo de revolta ou dor. Ela releva as coisas de um modo absurdo, mas como é uma personagem carismática, isso passa batido, mas é importante frisar que ela é adulta, e deveria ter o mínimo de autoridade. Já a mãe de Nishimiya é meio que a “vilã” da história, é fria, arrogante, não demonstra afeto pelas filhas é sempre dura com elas, só que como eu desconfiava, há uma explicação e ela é humanizada lá pela reta final, ou pelo menos compreendida.

H

A irmã de Nishimiya é minha personagem favorita, junto de Ishida. Logo no começo eu achei que fosse mesmo uma menina, mas depois ela se apresenta como menino, e depois, finalmente é revelado que ela é a irmã mais nova de Nishimiya, que resolveu adotar o visual tomboy para proteger a irmã, já que uma aparência masculina daria a impressão de força, rudeza e afastaria pessoas mal intencionadas. O crescimento dela na trama é fantástico. Nagatsuka é o amigo que Ishida ganha meio que a força, e que tem um ciúme muito grande dele, olha até demais. Não, gente, não tem nada de yaoi nisso, pode parecer, mas o que vemos é o quanto ? é carente de amigos, embora ele finja o contrário. Ueno é a personagem que mais detesto, que não tem salvação e não amadurece em momento algum. Ela é egoísta, má, e seu único drama é não ter a atenção que gostaria de Ishida, e claro, ela odeia Nishimiya por causa da proximidade da garota com Ishida. Ueno é detestável, e seu jeito de ser não pode ser confundido como sinônimo de personalidade forte e positiva. É revoltante a forma que ela desconta suas frustrações nas outras pessoas e tenta com seu mimimi nos levar a pensar que sua raiva internalizada tem alguma razão. O `x` que Ishida coloca em todas as pessoas que ele ignora e repudia, é marca permanente em Ueno por boas razoes.

Já Kawaii é a menina-meiga modelo e que vai se tornando absurdamente passiva, e tanto ela como Mashiba tem seus momentos de angustias destacados em algum momento no mangá, mas francamente nenhuma das duas inquietações deles me interessou. Eu não gosto muito desse recurso de mangá, onde temos um capítulo que destaque um personagem e seu drama-existencial quase sempre forçado ou muito raso. São vários e vários diálogos emotivos, mas que no geral, poderíamos ficar sem, tipo na reta final de Kokoro Connect, ou Clannad, aliás, obras criadas para o público masculino. Mashiba é um personagem genuinamente bom, que não aceita calado injustiças, e pra ser sincera eu nem lembro qual foi a grande questão existencial dele no mangá porque no final das contas, não foi relevante. Ele sonha em ser professor.

SD

Mas relevante por relevante, fica a construção da amizade, do caráter, os sonhos de cada um. Ah, sim, o final deixou um pouco a desejar, novidade né. Sobre a questão o que farei da minha quando me formar, eu compreendo a angustia de Ishida que não tem a mínima ideia do que vai fazer. Ele não é único, nem todo mundo sai do ensino médio com objetivos já traçados, às vezes demora mesmo para a pessoa se encontrar. Mas claro, que Ishida, ainda mais um estudante médio japonês não pode se dar ao luxo de ficar parado pensando, e pelo bem, pelo mal, achei sua escolha muito convencional, só que imagino que uma epifania no ultimo segundo seria muito forçada. Sobre a possibilidade de perder Nishimiya e o impulso inicial de deter isso, foi um momento irritante, mas poderia ter sido pior. Eu queria terminar o post de forma mais decente ou poética, sei lá, porém já escrevi demais, e espero sinceramente que o mangá venha para  Brasil. Uma versão animada já foi anunciada e aqui você pode conferir uma entrevista da autora, e quem sabe, apareça mais Koe no Katachi por aqui, afinal passei batido o one-shot. É isso, pessoas, e obrigada pela paciência de quem aguentou chegar ate aqui ❤

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