Não precisamos de uma Cinderela, meninas já são criadas passivas demais, obrigada.

Senta que lá vem o post óbvio, chutando cachorro morto com muito orgulho.

Um elenco tão bom jogado fora...

Um elenco tão bom jogado fora…

Não, eu não odeio a Cinderela, não odeio princesa nenhuma, nem odeio a Disney, até gosto do seu material, ainda que com algumas ressalvas. Este post é mais um desabafo, só para descarregar minha irritação com o enorme passo para trás que o estúdio deu com seu novo filme e sinceramente poderíamos ficar sem essa. Graças a Deus, Frozen, quer os hates queiram ou não, foi um fenômeno maior e se inseriu na cultura pop e ali ficou. A história de Elsa e Anna pode não ser geniaaaaallll, mas é isso: a história de Elsa e Anna, a aventura delas, o protagonismo delas, marcado pela amizade e determinação das duas. Já a Cinderela de Lily James é esquecível demais, assim como o filme todo.

Ok segurem as pedras e a pergunta que não quer calar: o que foi que te atraiu para esse filme? A história com certeza que não. Por incrível que pareça nem o visual, e sim, o elenco todo muito querido, eu não quis desperdiçar a oportunidade de ver esse povo: Sophie McShera e Lily James ambas de Downton Abbey, Richard Madden de GOT, Cate Blanchett, rainha do mundo e principalmente minha deusa Holliday Grainger (The Bórgias). Aí, você sabe que a coisa não será bem feita quando percebe que a Cinderela será a Lily James e não a Holliday Grainger, muito mais bonita, talentosa e encantadora. Opa! Quase esqueci de Hayley Atwell ❤ e Helena Bonham Carter. Porra como que com um elenco desses eu vou ignorar a produção? De mimimi negativo-fútil preciso dizer: a maquiagem e a caracterização enfeiaram todo mundo: Lily James estava mais linda na première do que no filme todo (a maquiagem para o baile envelheceu a coitada), Richard Madden ficou esquisito, até a Hayley ficou estranha. Quando saiu o trailer o que tinha de gente falando que o elenco era FEIO meu deus! Ódio da produção que cagou tudo.

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Sobre o enredo, sacanagem, galera, eu não vou mesmo recontar a história, o que eu quero é focar na mensagem repetida exaustivamente para a criançada (criançada nada, para as meninas): coragem e gentileza, coragem e gentileza, coragem e gentileza………… A Disney que é famosa por suas mensagens subliminares que uma galera desocupada preocupada sempre acha, resolveu enfiar na cabecinha das meninas, uma mensagem diabólica com as benções do patriarcado: sejam submissas, sejam submissas, sejam submissas……………..

Por que foi tudo isso que eu vi: tão vendo meninas, aguentem tudo, não reajam, não lutem, que magicamente as coisas vão melhorar. Que não é o fim do mundo você ir dormir no sótão, que nada! Você fica livre das suas parentas chatas, olha que legal! Que ser explorada nos serviços domésticos não é tão ruim porque ajuda a esquecer do luto. E assim, nossa heroína (risos) vai se conformando e tirando coisas boas de todo o tormento que vive, porque reagir é coisa feia, de menina desobediente. Seja bobinha boazinha que você será merecedora de um príncipe e de uma fada-madrinha. Ó, sempre que algum material da Disney é criticado por reforçar a domesticação das meninas, vem a galera do mas eu prefiro a Disney pq é material inocente, deixa as crianças serem crianças, é só um filme, mas a mensagem é sobre bondade, blá,blá,blá.

Uma coisa óbvia é que não foi a Disney que inventou o patriarcado, o machismo, a cultura de estupro, que meninas devem ser dóceis e meninos aventureiros, etc. Mas o estúdio faz parte dessa cultura, e seu alcance global e o impacto cultural que tem nas gerações que consomem seus produtos é inegável. Os tempos mudaram, então a desculpinha o estúdio foi criado na década de 20 , o material reflete o pensamento da época, não cola mais. É preciso evoluir e evoluir seus produtos, mesmos os revisitados. É possível fazer uma versão empoderadora sem ser panfletária e manter os elementos básicos do conto da Cinderela? Sim, e já foi feito e chama-se Para Sempre Cinderela, filme de com Drew Barrymore e Anjelica Hoston. Drew, simplesmente arrasa no papel, até as irmãs são mostradas de maneira interessante, e sim, para os pais preocupadas com inocência e pureza e sei lá o quê, é um filme perfeito para crianças e que sem dúvidas, meninas precisam assistir.

Se cada geração tem a Cinderela que merece, tadinhas das nossas meninas!

Se cada geração tem a Cinderela que merece, tadinhas das nossas meninas!

Sobre a bondade, bem não podemos confundir ser boa com ser besta. Nem achar que isso é algo positivo. O problema não está de jeito nenhum no coração generoso de Ella. A passividade travestida de ‘coragem e gentileza’ é que é a mensagem nociva a ser absorvida. A mocinha sem nenhum poder ou vontade de reação, não por estar deprimida ou assustada demais para isso e sim, por puro conformismo com a situação que vive é revoltante e a cada cena submissa de Ella eu ficava: mas menina, reaja! E você aí pensando que Cinquenta Tons de Cinza era a cereja do bolo da subserviência feminina, pois é, nem mulheres, nem meninas escapam das mensagens idiotas de sempre: sejam quietinhas que tá vindo um homem mudar toda sua vida. Essa aceitação (bem cristã) do sofrimento sem questionar, apenas aguentando tudo com o coração puro do filme, me lembrou os tempos do Brasil Colonial, com os nossos missionários ensinando a palavra de deus para os índios e negros, com o mesmo discurso cara-de-pau de obediência, servidão e que dali saíra algo melhor, uma lavagem cerebral para manter os cativos sob controle.

Outro argumento que recuso é deixa, é só uma fantasia, uma idealização, um escapismo. Primeiro ponto é: por que nunca fazem filmes de fantasia onde a idealização, o sonho das meninas é ter força, poder, coisas grandiosas? Quando o assunto é fantasia feminina é sempre a mesma coisa: coisas fofinhas, meiguinhas. A fantasia é só o status quo embelezado, a idealização nada mais é do que aquilo que sempre se espera das garotas, mas em forma de magia. A única realidade que escapamos é que de em nosso mundo é necessário cumprirmos essa cartilha só para sermos esculachadas depois. Porque né, ser doce, submissa e caladinha só para ser chamada de vagabunda não acontece nos filmes, neles nós somos recompensadas. Aqui, na vida real, temos que compensar o fato de termos nascido mulheres, nos dobrando e obedecendo.

Não esperava um filme feminista, mas queria uma protagonista com algum pingo de autoconsciência, amor próprio, e nem vou falar sobre a madrasta e as irmãs (todas atrizes maravilhosas mega mal aproveitadas) ou se apaixonar por alguém que você acabou de conhecer (Te amo Elsa <3) porque tudo isso me dá preguiça de tão batido. O meu problema principal foi com a falta de força da Cinderela em pleno 2015, onde é esperado que garotas tenham autonomia e senso critico, e não simplesmente dizer: eu te perdoo com um sorriso meigo após anos de abuso. Para piorar, Jogos Vorazes acaba este ano, tem meninas achando que Arlequina hiperssexualizada é modelo de poder, o mega sucesso Jurassic World tem a interessante Claire Dearing que só precisava de alguém para domar seu coração carreirista (parada obrigatória aqui), e os minions que não conheço nem considero são todos do sexo masculino (pq o masculino é neutro, ainda que seu público não) com direito a explicação besta do diretor: meninos são tontos, meninas não. E falando em revisitar filmes, a Disney vai fazer uma versão live da Mulan e outra da Bela e a Fera, filmes mais progressistas que Cinderela, e vamos esperar que pelo menos mantenham o tom, porque o pacote inclui a Pequena Sereia, um dos filmes mais machistas do estúdio e se já era inadequado na época, que dirá hoje. Não sei quanto a vocês, mas eu prefiro encarar mais uma rodada de Let it Go.

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