Sense8: algumas observações (negativas) sobre sexualidade na série.

Atenção! Spoilers sobre Sense8, bla,blá,blá, whiskas sachê…

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Terminei ontem de assistir Sense8 e acreditem: eu gostei bastante. Muita gente odiou o ritmo lento ou mesmo a falta de uma história mais bem amarrada, eu entendo e a série tem muitos problemas técnicos, de roteiro e em termos de representação racial e sexual, MAS ainda assim, a ideia de oito pessoas interligadas me cativou e What´s Up não para de tocar na minha cabeça. Resenha bonitinha de Sense8 não teremos, porque é aquele tipo de série que prefiro analisar do que apresentar e para começar gostaria logo de deixar minhas impressões sobre duas coisas, ambas relacionadas a representação LGBTT: o primeiro ponto tá bagunçado e contraditório, mas segue a vida e acho que conseguir expressar melhor o segundo.

1- Feminista Radical levando patada ou o velho fla-flu ideológico foi parar na série.

No primeiro episódio de Sense8 somos apresentados a oito pessoas de diferentes países que por motivos confusos misteriosos estão mentalmente interligadas umas com as outras. Uma dessas pessoas é Nomi, uma mulher trans, blogueira ativista, que mora em San Francisco e namora Amanita, uma mulher negra e maravilhosa. Ambas aparecem pela primeira vez através de uma cena de sexo, esse tipo de recurso televisivo tem até nome, mas esqueci. Meu primeiro incômodo foi que a tal cena de sexo entre as duas tem olha só, um pênis colorido no meio. Eu não vou pautar como lésbicas e trans lésbicas devem transar, porém é ponto exaustivo e perigoso a ideia de que lésbicas não gostam de homens, MAS podem gostar de pênis, de serem penetradas (Minhas Mães e Meu Pai mandam lembranças lesbofóbicas). Sim, existe esse pensamento, parece inacreditável, mas lésbicas precisam gritar a plenas pulmões que não, não curtem pênis, nem penetração. E na contramão temos transativistas (não são algumas, mas também não são todas) que desqualificam as experiências das lésbicas e batem de volta, dizendo que sim, que elas podem (e deveriam) gostar disso. Há aí, divergências de ideias, frutos de diferentes experiências sociais e sexuais, certo, só que Nomi e Amanita são um casal l-é-s-b-i-c-o, ora, se o status quo é falocêntrico, um brinquedinho no formato de pênis, ainda mais na cena que apresenta as duas é bastante ofensivo. É um detalhe que deveria ter ficado de fora. Imaginar que Amanita uma lésbica cis tenha vontade de penetrar a namorada foi grosseiro. A cena me irritou bastante e por mais que eu tenha consciência que as experiências de Lana Wachowski (uma mulher trans) estavam no roteiro, não há nada de empoderador ou desafiador nisso, e sim, reforça a velha ideia de que todo mundo quer/precisa de um pênis para ter prazer.

Seguindo adiante, logo no primeiro episódio também, temos uma feminista radical (no sentido literal!) sendo hostil com Nomi e levando uma cortada de Amanita.

Ibagens

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Sinceramente, o primeiro ponto que me intrigou na cena foi: radfem em evento LGBT? Hã? O feminismo radical tem severas discordâncias com o movimento queer, então achei meio fail o contexto da cena. Nem com a Marcha das Vadias elas simpatizam (e os motivos são super válidos) que dirá Parada do Orgulho Gay onde não raro lésbicas são invisibilizadas, então Lana, acho que você viveu tretas MUITO diferentes da minha realidade ou viajou legal na hora de dar um puxão de orelha nas terfs. Outra coisa, é que Amanita é que apresenta Nomi para suas amigas, mas de forma instantânea ela e a suposta amiga já querem cair na porrada? Olha, a coisa ficou confusa. Para quem não entende do assunto, foi apenas uma cena onde uma lésbica defende sua namorada de uma chata preconceituosa. Mas a real, é que ainda que mal contextualizada (quem conhece o básico de teoria radical e teoria queer e a treta entre os grupos entendeu) a cena foi uma crítica à conhecida transfobia do feminismo radical.

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O mais incrível de tudo é que nessa cena, EU que ando com pouca paciência para o feminismo radical, achei a patada desnecessária e gratuitamente desqualificando essa corrente do feminismo. Mas aí eu vou ver a reação das radfem sobre a série e bato com “Credo, tem uma trans não vou mais ver,” Porra, fica difícil não dar a Lana Wachowski o direito de expressar o que ela deve ter passado. Pessoas, tudo é questão de que lado você vivencia, como mulher trans ela de certeza deve ter ouvido poucas e boas de algumas ativistas feministas. Ai, mas se fosse o contrario? Se fosse uma radfem criticando o cotton ceiling, por exemplo? Eu acharia a crítica válida também, não, não para agradar a todas, mas porque são muitos lados de várias experiências e qualquer ativismo tem seu lado negativo, um ponto a ser criticado, e eu não acho que certas feridas devam ser ignoradas. O contexto criado na série foi bem esquisito, mas vamos lá, tirando as contradições já apontadas, onde que é mentira que tem feministas radicais com esse tipo de atitude?

Eu fui dar um search na reação das feministas radicais e admito que não fiquei surpresa com o show de argumentos transfóbicos contra a série. Se alguém achar um texto que não seja atacando, falando em nojo, macho, tranny ou qualquer coisa parecida, eu quero ler. Não verei pq tem uma trans é um argumento muito imbecil. Deixa eu ver, de pérolas, eu vi comentários do tipo : A Nomi chora o tempo todo provavelmente pq é assim que ’Lana’ pensa que mulher deve ser” Oi? Ou então “vc viram que a mãe é vilã SÓ pq ela não aceita a filha, significa…” Nossa! E claroooooooooooo todas chamando Lana de ele, Gente, eu sei que vocês são melhores que isso. De resto, achei um textão usando a cena da radfem para desqualificar todo o feminismo, pelo modo de escrita só podia ser masculinista ( ativistas machistas fracassados) mas não fiquei muito tempo lendo aquela merda para constatar, mas é isso hates gonna hate.

Tem muitas coisas em ambos os discursos que me incomodam, e sim, eu não gosto quando transativistas querem pautar o feminismo, desconstrui-lo e adequá-lo em primeira instância as suas causas. E enquanto tem ativista trans querendo se meter no feminismo e sem vergonha nenhuma da sua misoginia, temos radfems vomitando transfobia, desumanizando trans, negando não apenas que trans são mulheres, mas seres humanos também. Mas ambos lutam para que mulheres e trans sobrevivam em um mundo com diversas vertentes misóginas. Não dá para amar todo mundo, mas quando a coisa descamba para ataques ou pessoais ou generalizantes, eu prefiro pegar a pipoca e ver onde vai dar.

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Mas saindo da questão radfem X transfem e entrando em um aspecto positivo temos sem dúvidas um casal lésbico maravilhoso e salvo o que já comentei, divinamente bem trabalhado. A atriz que interpreta ela, Jamie Clayton, é uma mulher trans, ponto positivo para a diversidade dentro e fora da tv. A transfobia é mostrada na série, na figura da mãe de Nomi, que se recusa chamar a filha de outro nome que não seja Michael, mas a vida de Nomi não gira em torno de sua transexualidade outro excelente ponto. É apenas uma parte de quem ela é, além disso, ela é uma hacker muito competente e os outros personagens sabiam que Nomi era trans, mas não houve uma perda de tempo panfletária do tipo: irem do choque a aceitação do fato. Simplesmente, ela era a Nomi, uma deles e pronto. Nada de piadinhas ou perguntas sobre como ela se tornou trans. Os medos e traumas dela foram bem apresentados, de forma humana, não didática, e seu relacionamento com Amanita é tão intenso, puro e real que pra mim é um dos pontos altos da série. Freema Agyeman é pura magia, não apenas linda, e o visual ajuda bastante, mas ela é uma força encantadora. As duas trabalhando juntas contra tudo e todos rendem excelentes momentos.

2- O suposto poliamorismo entre Lito, Daniela e Hernando

Amor, tem uma intrusa na nossa relação.....

Amor, tem uma intrusa na nossa relação…..

Enquanto que Nomi e Amanita já viraram cânon com todos os louvores, o relacionamento do casal gay mexicano foi retratado da forma mais ofensiva possível. Desculpem-me irmãos Wachowski, mas a ideia de transformar o relacionamento a dois em três, um relacionamento gay com a adição da mulher-melhor-amiga foi nojenta. Não vi nenhuma celebração ou tentativa de subversão contra a norma hetero e monogâmica vigente, apenas uma fetichização barata vendida como amizade colorida ou sei lá o quê.

Admito: de cara, eu achei divertida a reação de Daniela. E sim, eu super me identifiquei ❤ (tão fofo os gay juntinho). Mas vamos dissecar as coisas: Lito e Hernando vivem um relacionamento fechado, estável e escondido. Lito é um ator famoso, um sexy simbol e em um mundo homofóbico sair do armário seria o mesmo que jogar sua carreira fora. Para despistar qualquer dúvida sobre sua heterossexualidade, ele sai (apenas sai) com mulheres e a última escolhida é Daniela. Desculpem, mas eu sequer lembro o que essa mulher faz da vida (nada, eu acho), só que ela não se contenta apenas com encontros e vai até o apartamento de Lito para seduzi-lo. Daniela é mostrada como a típica mulher que nunca tomou um toco na vida, não aceita isso, e é impertinente e ridícula ao avançar em Lito apesar dele dizer não. Eu já tava com raiva dela por isso, mas aí ela dá de cara com Hernando no apartamento de Lito, soma dois mais dois e temos uma das melhores cenas da série, absurda sim e que me fez gostar dela instantaneamente. Daniela tem fetiche por casais gays e se vê em meio à realização de um sonho. O arranjo para a história dos três estava perfeito até aí. Na minha cabeça ela iria apenas ajudar Lito, mas Daniela se insere de forma tão absurda, que minha raiva por ela volta e só foi aumentando.

Esse gif sozinho é vida <3

Esse gif sozinho é vida ❤

Bom, começo admitindo uma coisa que ando lendo por aí e não tenho certeza se concordo: o relacionamento dos três é ou não POLIAMORISMO?. Pela razão óbvia de que Daniela é apenas amiga do casal, ela é mais a intrusa da relação. Não existe uma relação igual entre os três e sim, há um casal e uma curiosa visitante que os objetifica. Eu não sou adepta do poliamorismo, do pouco que sei, desconfio e tenho preguiça de procurar me interar mais dessa tendência pós-modernazzzz. Mas Sense8 abraça todo o tipo de tendência que ache subversiva e instigante e tenta na sua proposta (e falha muito, como falhou aqui) propagandeá-las. O resultado acaba mais confuso do que interessante.

Daniela se instala (sem o consentimento de Lito) na vida do casal, e fetichiza ao extremo a relação dos dois e claro, ela se mete a fazer parte daquilo tudo. Para Lito, o apartamento é o lugar sagrado dele e de Hernando e é lá que a mulher se enfia. De repente não existem mais cenas entre os dois, e sim entre os TRÊS, o casal não tem mais momentos sozinhos porque Daniela está sempre lá a tiracolo; de repente, eles sequer se incomodam em transarem com ela olhando e se masturbando; e de bônus: ela tira fotos e os filma sem que eles saibam. E é esse hobby que vai dar em uma merda muito grande, mas quando tudo se resolve, adivinha: ela continua tirando fotos deles. Independente da vontade dos dois já que ela é amiga que não tem jeito mesmo…

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Se para você não tem problema nenhum, então imagine se fosse um homem babão e punheteiro que se enfiasse a nível de sempre na relação de Nomi e Amanita. Que se masturbasse enquanto as duas transassem e ficasse filmando tudo. Ofensivo, não? Pois é, só porque Daniela é mulher, isso não torna sua atitude nojenta mais inocente. Se eu não quero lésbicas objetificadas, eu também não quero que gays sejam reduzidos ao fetiche de uma mulher inconveniente. O reencontro entre Lito e Hernando poderia ter sido mais bonito se a intrometida não tivesse interrompido os dois ao tirar uma foto. Ela gosta deles, são amigos, mas ela os objetifica para suas fantasias em tempo real. Não seria errado, ela ser amiga do casal e ter fantasia deles, mas a partir do momento em que ela decide viver tudo ao vivo e a cores, ela está invadindo a relação dos dois, que vivem um romance escondido e nos poucos momentos em que podem vivenciar isso terão que dividir com ela.

Sabe aquele velho pensamento de reduzir gays a sua sexualidade? A seres sexuais apenas? Pois bem, a trama não os reduz, isso porque tem uma personagem para fazer isso e passar batido. Além disso, Daniela é vítima de um ex abusivo, e aparentemente a saída é ficar escondida dele até as coisas se acalmarem ou ceder e ficar com ele. Essa parte da história dela vai ficar para outro texto, sobre questões feministas, porém mesmo com a resolução do problema dela (e Lito se assumindo publicamente), aparentemente ela vai continuar a viver com o casal.

Textão, né? Bom, para encerrar, repito que adorei Sense8 (eu sei que gosto de uma série quando sinto saudades quando acaba e quero ver de novo), e textos virão. Para quem aguentou até aqui, obrigada ❤

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