Jurassic World: umas coisinhas sobre o filme dos saltos polêmicos

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Falando sério, eu nem ia escrever sobre Jurassic World. Primeiro porque não achei o filme tudo aquilo e segundo porque o texto que eu li da Dana Martins  é daqueles definitivos, então, pra quê me dá ao trabalho de escrever o que já foi dito? Mas foram alguns pensamentos que me motivaram a deixar algumas palavrinhas aqui. Primeiro, o chorume ridículo e risível desse post aqui, que entre tantas acusações diz que agora todos os filmes são obrigados a passar por um zeitgest feminista? Que as feministas que criticaram o filme tão dizendo que mulher não pode ser mais mãe, entre outros delírios. Eu comecei a ler e fiquei indignada, até porque a pessoa se diz feminista, mas depois ao chegar ao final, vi que era assinado por um homem. Ah, me perdoem a misandria, mas isso explica o “mulheres como Claire devem ser extintas só porque contradizem o estilo de vida de mulheres progressistas?” . Minha indignação virou risada.

Outro texto, esse fantástico, apontou uma coisa que me incomodou no filme, mas não sabia como botar em palavras, e nem percebi o grau de absurdo da cena: a morte explicita e demorada da babá, digo a assistente de Claire, que deveria tomar conta dos meninos. A análise foi tão dura e certeira que só fez minha antipatia pelo filme crescer. Não odeio JW, mas assim como Cinderela, ele é um retrocesso gritante. E mais uma coisa pequena, mas que me esqueci de comentar lá no é sobre a construção do irmão mais velho, que tal como Claire, não é apegado à família, mas a bagunça toda vai fazer os dois terem mais consciência dos valores familiares.

zzzzsejamamãezzzzzzzzzzz

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Começando pelo feministo de plantão, checa aqui algumas palavras do moço:

“Eu diria que é irracional esperar que cada novo filme deva seguir as orientações rígidas de um zeitgeist feminista recém-moldado, simplesmente por uma questão de perpetuar o feminismo.”

Amigo, você usa drogas? Pra começar, ele usa a boa e velha acusação de o feminismo está patrulhando e MANDANDO em tudo, nooossa se não passar pela aprovação feminista, adeus. Em que mundo esse cara vive? E que merda é essa de que criticar o machismo virou agora ‘questão de perpetuar o feminismo’. Hã? Ele fala como se o feminismo corresse o risco de perder sua hegemonia, quando sabemos muito bem que o movimento é ridicularizado e desprezado de forma geral. O feminismo é tão malvado e chefão do mundo que o perseguido Jurassic World bateu os Vingadores nas bilheterias, imagina se não tivesse sido caluniado tadinho!

“Mas não é uma questão de sexismo, é uma questão de Hollywood recorrer às mesmas estruturas de histórias que funcionaram no passado. Jurassic World é clichê, na pior das hipóteses, não machista.”  É um clichê sim, mas colega é um clichê machista! Uma coisa não anula a outra. O mundo tá cheio de clichês machistas por aí, e é por isso que lutamos para descontrui-los, porque essas coisas não são positivas para nós mulheres e acreditem nem para homens. Esse cara desse ser do tipo que não acha The Big Bang Theory machista porque os homens da série são tudo lambe salto, como se esse tipo de ideia não fosse machista. Além disso, tem coisas que não deveriam nem ser aceitáveis no passado que dirá hoje em dia!

“Não é machismo, é apenas um arranjo de papéis tradicionais de gênero que estamos todos cansados ​​de ver”. Eu ri muito dessa parte. Gente, ela é absurda demais! Se papeis tradicionais de gênero não são uma construção machista, então que porra seria machismo? Esse cara não é feminista. Ele sequer sabe o que é machismo ou feminismo e está tão preso em sua alienação de que as feministas andam mandando em tudo que claro, ele vai defender os privilégios do status quo. Eu juro que acho que é trollagem, mas parece que não, a criatura realmente acredita nisso!

Paralelo a essa comédia, eu vi vários textos em defesa de Claire. Com argumentos de verdades, meio que chovem no molhado, mas de certa forma, estou fazendo o mesmo aqui. Eu gostei da Claire e deixo claro, que o problema não está nela em si ou na sua personalidade, e sim, no que a trama faz com ela, como a personagem vai sendo obrigada a se descontruir (através da culpabilização pra piorar) para se adequar a valores tradicionais. O jeito de ela ser não é errado, mas o filme deixa claro que é. Eu odeio a parte em que ela diz SE eu for mãe e sua irmã encerra o assunto com QUANDO, ou seja, Claire não quer, mas o caminho para maternidade e família é certo, porque o estilo de vida dela é incompleto e errado. A correção que a irmã faz tira toda a autonomia e direito de escolha da personagem, e é óbvio que qualquer um que assista o filme sabe que Claire está errada, menos ela.

O cara ainda chora bastante sobre o fato de feministas quererem ignorar a complexidade de homens e mulheres, o que não é verdade, o que mais nós gritamos é que não existe mulher e sim, mulheres, com múltiplas experiências e não um modelo só, já a Holywood que ele defende não está nem aí para diversidade de mulheres.

O que acontece com quem não cuida direito das crianças

O que acontece com quem não cuida direito das crianças

Saindo desse texto sem noção, quero comentar o que a Molly Fitzpatrick explicitou muito bem: sim, a morte de Zara foi indiscutivelmente um castigo. Ela era a responsável pelas crianças, mas não tem o menor interesse na função, é distante e desanimada com a ideia de servir de babá (Claire tranquiliza a irmã dizendo que Zara vai se sair bem, pois ela é inglesa, eles tem as melhores babás). É uma personagem antipática, e em nenhum momento o filme dá alguma margem para empatizarmos com uma profissional reduzida a cuidar dos sobrinhos da chefa. De repente, ela não só perde as crianças, como depois, é capturada e morta, de forma lenta e cruel, enquanto os garotos observam. Jurassic World é um filme limpinho nas cenas de matança, mas a morte de Zara foi explicita, supostamente porque a chata mereceu. Claire conseguiu a redenção, mas a outra carreirista do filme não teve essa chance, e pensem: se fosse uma personagem mais simpática, ela teria um final doloroso e demorado do jeito que foi?

Sobre os tão falados saltos, houve quem se revoltasse e dissesse: mas ela se veste de acordo com sua função, queriam que ela estivesse como? Eu concordo, mas fiquei pensando: Claire tem o parque nas mãos, consegue arrumar qualquer coisa, sério que ela não teve a ideia de pelo menos pegar um par de botas antes de encontrar Owen e partirem atrás dos meninos? A Anna fez isso quando foi procurar a Elsa, porque certamente os produtores de Frozen se tocaram que seria absurdo a princesa sair por aí de vestido e saltos. Porém, mais absurdo do correr de saltos, é CONSEGUIR correr de saltos e eu observei muito atentamente as cenas, e sim! Claire fez o inimaginável hahaha

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No mais, Claire é uma personagem feminista? Bom, eu acho muito raso considerar que só por ela trabalhar e não ter tempo para a família ou relacionamentos seja motivo suficiente para considera-la feminista. Essa ideia de feminismo é datada para a realidade em que ela vive. Mas o fato dela rejeitar tradicionais papéis de gênero como a maternidade, em um mundo que despreza esse tipo de escolha, é uma atitude feminista. Porém, acho muito especifico muito individualizador, e pra mim, personagem feminista precisa interagir (de forma empática) com outras mulheres, e apesar dela falar com duas mulheres (irmã e assistente) não dá para tirar proveito. Sem contar que o filme não passa na Bedchel Test, o assunto de Claire com ambas é sempre os garotos.

E de coisinha pequena e meio irrelevante, o irmão mais velho Zack certamente não é um personagem simpático (nem o menor, coisa chata!), porém notem que ele, tal como Claire é mostrado como alguém que supostamente não está nem aí para a família; e ele não está animado com a ideia de passear por aí com o irmãozinho. Mas claro evidente que as desgraças que acontecem vão unindo os dois e Zack vai se tornando protetor e consolando o irmão, sobre a situação do parque e a separação dos pais. Tanto ele, quanto Claire melhoram enquanto pessoas, ao contrário de Owen e o pequeno. Mesmo sendo chato, Zack é apenas um adolescente normal em um passeio que ele não queria ir. E apesar do que a mãe fala, em nenhum momento ele maltrata o irmão menor, que é uma metralhadora de informações quantitativas irritantes. Só que o filme dá a entender que Zack está se comportando de forma errada, porque né, que coisa horrível preferir paquerar as gatenhas do que brincar com seu irmão caçula. Ele tem minha solidariedade, porque eu sei como é ser arrastada para programas estilo família e morrer de tédio.

É isso pessoas, e de coisa boa, o filme me deu vontade de rever os outros, espero conseguir e comentar por aqui. ❤

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3 respostas em “Jurassic World: umas coisinhas sobre o filme dos saltos polêmicos

  1. Muito bom! Obrigada por indicar o meu texto, mas vim aqui e encontrei algo melhor ainda. ❤ Eu não vou ler o texto do cara porque não sou obrigada com essas coisas, mas é um pouco triste. "É só os papeis de gênero tradicional" é não perceber a profundidade do problema. Por acaso eu escrevi um texto sobre achar que feminismo é só "Eu amo mulheres" e parece que é esse o problema. O cara pensa que por achar que mulher é igual e "ser a favor de mulheres" e "que mulheres podem ser incríveis" já basta pra desconstruir o machismo. No caso, o problema é muito de contexto em relação a outros filmes – o fato de que você SEMPRE tem essa imagem da mulher mãe. Até a Viúva Negra não conseguiu escapar e no último Vingadores teve a base de toda as suas seguranças desde o primeiro filme resumida a não poder ser mãe, que ainda é mais horroroso porque retrata as mulheres que não podem ter filhos (ou não querem) como monstros. Não é sobre um papel, moço. É sobre o fato de que algo ser clichê é uma forma de querer que algo seja "só isso". E quando se trata de um papel clichê de gênero, é uma forma de querer que a mulher seja apenas isso. Quando feministas mostram isso, é porque querem que a mulher possa ser representada de outras maneiras mais. E no caso de Jurassic World, a moral da história ainda é uma forma de dizer o que a mulher deve ser (mãe) pintando outras opções como ruim. (acho que você sabe disso, mas me empolguei e quis completar o raciocínio HUAHUAHUAH)

    Muito boa a parte sobre a assistente.

    Curtido por 1 pessoa

    • Obrigada pelo comentário! e sim, essa coisa da Viúva fazer o papel de ‘mulher’ do grupo é desanimador…é aquela coisa de tentar fazer coisas diferentes, mas usando o mesmo molde: Claire eViúva são mostradas como fortes e inteligentes, mas a coisa ainda se reduz a interesses amorosos, ou no caso da Viúva não esquecer que ela é a gostosa, então tem ceninhas rápidas, mas que insistem em lembrar o que não pode ser esquecido, a beleza da atriz. Lembrei da Hayley Atwell que se recusou a fazer uma cena nua e disse que não era obrigada a cumprir a fantasia de ninguém s2
      E sim, acho uma chatice elogios do tipo: “mulher consegue fazer tudo e AINDA em cima de um salto!” ah que bacana. sqn…

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  2. ah!!! sobre o salto: acho interessante como é a representação mental de gênero feminino deles. correr com salto: GIRL POWER. O que eu acho super legal, em um filme tipo Sucker Punch que brinca com metáforas e figurino emblemático. Talvez até em Demolidor, que é todo ~aesthetic~. Mas em Jurassic World reproduz: mulher tem que usar salto!!! E pior, a ideia de que mulher tem que se ~vestir~ bonita até pra fazer essas coisas. Com bota ou sem bota, primeira coisa que eu ia fazer era jogar os saltos pra longe e sair descalça. Dava pra ser bom, mas apenas se juntou à lista de coisas questionáveis que limitam a mulher no filme. 😦

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