A diversidade de Sense8: entre muitos erros, as boas intenções ficam

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Atenção: blá,blá,blá, spoilers de Sense8 e revisão duvidosa

Eba, mais um texto sobre Sense8 e desculpem se as coisas andam mais contraditórias e confusas que o normal, mas é que a série causa esse efeito na gente, nada é certeza. O post tá uma bagunça organizada e tenho aquela impressão de que ainda faltou falar alguma coisa, ou a certeza de que alguns tópicos deveriam ter sido melhor desenvolvidos, mas é a vida. E é com tanto otimismo e credibilidade que quero deixar algumas pinceladas sobre o fator diversidade na série, focado mais na questão das diversas nacionalidades apresentadas.

Sense8 é sobre diversidade, certo? Começando pelo básico, o equilíbrio meio a meio entre homens e mulheres deve ser comemorado, afinal geralmente em qualquer grupo, no máximo-chorado colocam duas mulheres para ‘cumprir cota’. Eu me lembro de um comentário espirituoso sobre Vingadores – Era de Ultron, falando que agora o filme teria o DOBRO de personagens femininas importantes, ou seja, DUAS.  Haha, é tipo isso. Já no grupo de oito sensates temos uma igualdade literal. Em termos de representação racial, também não temos do que reclamar, até porque óbvio evidente, esse é um dos objetivos da série. Quer dizer, sobre a questão da raça e cor, gostaria de deixar umas coisas para pensar. Eu sempre defendo diversidade e BOA representação de outras etnias, mas acredito que algumas coisas não precisam ser preto ou branco (sem trocadilhos, eu acho). Por exemplo, Miguel Ángel Silvestre, o ator que faz Lito não é mexicano, é espanhol, e na série sua origem espanhola não é ignorada. Não é que estejam passando o ator como mexicano, em Sense8 ele é descendente de espanhol, residente no México. Não entendo porque as críticas sobre isso (suposto falso mexicano) não se estendam a Riley, que é da Islândia e mora em Londres, e a atriz que a interpreta não é islandesa. Tem uma teoria que li muito por aí de que o ator escolhido é espanhol porque mexicanos são muito homofóbicos e seria impossível achar um ator que topasse interpretar um gay. Só que as mesmas pessoas que falaram isso, blogueiros americanos, deixaram passar o fato de que Alfonso Herrera (o Hernando) é mexicano, não um ator qualquer, mas um galã muito conhecido. Acho que o desconhecimento dos americanos sobre RBD os traiu na hora de fazerem certas críticas.

Outra coisa é sobre a cor de Lito. Ele não é negro ou pardo, mas certamente não tem traços caucasianos. Ele pode ser lido como branco, mas seu biótipo não corresponde ao padrão hollywoodiano, mas a queixa é que ele é mais um dos ‘brancos’ do elenco. Mas eu não vejo comentários parecidos com relação ao nosso Poncho, pelo fato dele ser mexicano. A questão da origem e cor é bastante interessante, porque não acho que sempre haverá certezas absolutas, se o intérprete de Lito fosse mexicano, ele seria visto como branco, ou como pessoa do cor? Para se pensar, mas da minha parte eu o consideraria sim, pelo fato dele não fazer parte do padrão caucasiano.

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Na mesma linha, li comentários desqualificando a representação asiática, defendida por Bae Donna, a querida Sun, pelo fato dela ser branca demais para ser asiática. Sim, foi isso que li e achei incômodo. Poxa, quer dizer que ela, nascida e criada em Seul, não é asiática o suficiente para a série? Na boa, não gostei mesmo. Porque sem querer caímos no perigo de estereotipar como uma personagem de determinada etnia deveria ser. Não sou ingênua quanto a questão da preferência por pessoas que tenham traços mais claros para entrarem no cast. Modelos negras são escolhidas, ou por terem a aparência muito exótica e assim serem vendidas como produtos excêntricos, ou por terem traços próximos a de pessoas brancas, como os cabelos não muito crespos, nariz e lábios finos, essas coisas. Fica uma dualidade, coisa que não existe quando se selecionam modelos brancas. Dependendo da proposta da história, seriados também seguem esse pensamento. Mas romper com esses pensamentos não pode ser através da imposição de outros padrões. A cor da pele de Bae é branca, sim, mas ela por si só já visibiliza os asiáticos na série, ou seja, só por ela ser branca, quer dizer que o resto da sua etnicidade não vale nada? Que representatividade só é válida se a pessoa for negra ou parda?  Acho injusto porque não houve embranquecimento da atriz, ela é daquela cor mesmo e dizer que ela faz parte do grupo branco majoritário é uma ofensa. A construção de Sun tem problemas, calma que chego lá, mas querer que coreanas tenham cor para poder qualificá-las enquanto não-brancas é exagerado. Então, com licença que vou continuar contando como não-brancos (no sentido de fora do padrão Hollywood), Capheus, Kala, Lito e Sun,  ou seja metade dos sensates. Sem contar Jonas e Amanita, os coadjuvantes recorrentes de grande importância para a história.

Ok, indo para os aspectos negativos, eles são óbvios. O desconhecimento de cada cultura e a vontade de exaltar cada uma acabou em um banho de estereótipos. Não sou expert na questão dos sotaques, mas vi vários africanos, residentes de Nairóbi ou não, reclamarem do sotaque de Van Damme, que estaria muito forçado (e o ator é britânico). Sobre todo mundo falar inglês, eu deixo a preguiça vencer: americanos odeiam legendas, chato isso, mas em termos práticos, um mesmo idioma facilita as coisas para quem assiste. Sense8 tem tanta coisa confusa que eu acho que o detalhe da língua é chover no molhado, aliás, Caminho das Índias tá passando de novo na tv, é estranho indianos falarem em português, mas a gente teria mesmo paciência se os diálogos fossem na língua nativa? Esse tipo de furo na história é mais por uma questão de comodismo mesmo, para mim, os problemas de fato foram outros.

Insistir na diversidade, o tempo todo, querer destacar de forma forçada aspectos de outras culturas foi cansativo. A cena de bollywood foi linda tirada de contexto, mas na história ficou constrangedora. Seul assim como Sun, apresentada como fria, prática e controlada foi outra bola fora. Mexicanos sempre sensuais e violentos, o ex de Vanessa era um típico vilão de novela, até de máscara ele aparece no apartamento de Lito para confrontá-lo, para deixar as coisas dramaticamente novelescas.

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Aliás, Lito como representante mexicano, é o galã de novela, sexy simbol do grupo. Quer coisa mais clichê do que se lembrar de México e pensar em novela? Se ele fosse brasileiro, certeza que seria jogador de futebol. A indiana Kala que consegue conciliar sua fé com sua carreira de cientista, sem problema nenhum, mas é incapaz de ter autossuficiência para escolher a profissão de farmacêutica ao invés de um casamento por conveniência. Ela mesma relembra o conselho que o pai deu a ela: arrumar um diploma, não um marido, e de repente, isso não vale de nada. Oi? A questão de não é excesso de tradicionalismo (senão não deixariamter uma profissão) ou mesmo miséria, e sim, um conformismo raso, sem muitas explicações. Russos são de gangue, asiáticos empresários implacáveis em seus arranha-céus…sobre Van Damme, repete-se a ideia de que sendo africano, ele vive em meio a eterna miséria, violência e uma mãe com AIDS. Mas eu, apesar de me incomodar com isso, deve admitir que tenho sentimento diversos sobre a criação de Van Damme. Não há dúvidas que os irmãos poderiam ter feito um trabalho melhor sobre o garoto, poderiam ter diminuído o excesso de aventuras violentas que o rapaz passa, mas acho que dentro das limitações deles, eles tentaram.Certo, que a África poderia ser mais do que isso, mas ai eu reflito sobre o pessoal que não gosta de filmes como Central do Brasil ou Carandiru rodando mundo afora porque passa a má impressão de que aqui só tem miséria. O que faltou ao plot de Vam Damme foi mostrarem um pouco mais do sistema que o oprime, ao invés de investirem tanto no mundo-cão. Que Capheus é pobre e sua mãe precisa de remédio, o que o torna vitima da bandidagem é evidente, mas faltou o tom de denúncia, de quem mantem esse estado de desesperança, coisa bem retratada no excelentíssimo O Jardineiro Fiel. Sense8 gosta de desafiar as regras do mundo, mas ao mesmo tempo perdeu oportunidades preciosas de fazer críticas contundentes.

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Não foi por acaso que os plots em San Francisco e Chicago foram os mais bem elaborados, é mais próximo da vivência deles. A trama russa foi toda trabalhada naqueles filmes chatos de ação que passam domingo na globo e ninguém assiste, e ainda que o trabalho em cima de Riley tenha sido mais emocional do que cultural, achei que mistificaram muito a Islândia, com essa história de lendas, maldições, e sempre repetindo, no meio pais tem um ditado, um pensamento, acreditamos

E fechando a estereotipagem, temos Sun, a única asiática e que coisa, sabe artes marciais e é mega fodona. E aí eu peço permissão para ser contraditória de novo, porque apesar de Sun ser a asiática-dos-golpes e isso é um estereótipo, é um problema, não vou negar que vê-la salvando os outros sensates era um alento. O roteiro e eu, e os personagens dependemos muito dela para ajudar os outros, ficou repetitivo, mas confortador, porque sabíamos que nos momentos mais difíceis, ela daria conta.Poderiam ter abusado menos, mas não serei hipócrita de negar que gostei de vê-la salvando Van Damme duas vezes. A primeira vez então foi muito emocionante. Mas apesar desse trope, Sun é uma personagem humanizada, mesmo com todo um contexto clichê, ela se desenvolveu melhor até do que o casal Wolfgang-Kala. Porém vou guardar minhas impressões sobre ela para outro post.

Deixa que a Sun resolve <3 problemático, mas adorável

Deixa que a Sun resolve, problemático mas adorável s2

Outra coisa que quero puxar a orelha é em duas cenas que envolvem religião. Sabe,religião não é algo intocável, mas a fé das pessoas sobretudo, não pode ser desrespeitada tão gratuitamente. Há dois momentos desnecessários na série, o primeiro é quando Kala está rezando para seu Deus Ganesha, e não basta o tom da conversa ser meio infantil, ela se refere ao pênis de Wolfgang como uma tromba, enquanto olha para a tromba do deus-elefante .Sabe, para nós que não rezamos ou acreditamos em Ganesha isso pode ter sido divertido, mas foi bem desrespeitoso. É questão de se colocar um pouco no lugar de quem acredita.

O segundo momento, esse foi descaradamente ofensivo é quando Lito conversa com Nomi, e ele conta sobre o primeiro encontro que teve com Hernando. Ele compara o sexo oral que fez no namorado a uma eucaristia. Que enquanto cristãos recebem a hóstia, ele, hã, estava recebendo Hernando e esse momento todo de excitação foi de uma importância quase que religiosa para sua vida, daí a comparação com a comunhão. Foi uma provocação do roteiro, sem dúvidas, mas minha pergunta é: esse tipo de coisa vai atingir os fundamentalistas que certamente não tiram folga e oprimem minorias e não vêem a série, ou vai atingir o público mais liberal que apesar de suas crenças acreditam na liberdade e diversidade? Não foi um aspecto repressivo e preconceituoso da religião que foi alfinetado, e sim um gesto ritual, simbólico e importante para quem crê. Foi de uma insensibilidade tamanha a cena, e não, não comparem isso com a ‘polêmica’ da trans crucificada. Viviany Belmont estava fazendo um ato de reflexão, de comparação, uma crítica e não ridicularizando Cristo, como fervorosos acharam. A mensagem dela não foi um ataque gratuito, diferente da cena de Lito. Poderiam ter passado sem essa.

O titulo do post é bem complacente, né? Pois é, Sense8 é um projeto ambicioso que falhou diversas vezes por se achar capaz de explorar diferentes vivências e ao mesmo tempo fazer o telespectador se sentir identificado, usando receitas tão básicas. Porém, quando a gente esquece a pretensão disso, é bem agradável de assistir e se encantar, ainda mais com um texto sensível e delicioso de ver. Porque quando eu penso que gostei da Sun ou do Capheus, não por serem a asiática ou o africano, mas por quem eles são individualmente, eu não posso dizer que as falhas foram totais.

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