Do racismo reverso vocês não falam, né?

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Pessoas, eu menti no post sobre Tilda e cia , o caralho que eu vou desenhar pq racismo reverso não existe, eu até ia, mas ah…a paciência acabou antes mesmo de tentar. Enquanto tiver um monte de preconceituoso de merda no mundo, extermínio de jovens negros, mulheres negras em situação de vulnerabilidade, ‘comediantes’ racistas, e artistas fazendo black face, eu sinceramente acho que não dá para desenhar e colorir não. Tem gente que só mandando se foder mesmo, porém, se você quer minimamente pensar sobre o assunto ‘racismo reverso’ aqui vão algumas pinceladas. E rezem para a Nossa Senhora da Interpretação de Texto, pq tem gente precisando! Vamos aos tópicos do dia:

Personagem branco vira negro

Pobres fanboys, não basta a série da Supergirl ser voltada para o público feminino adolescente e por isso vai agradar, o horror, meninas, e não os pobres punheteiros de plantão (a heroína não é gostosona e sim uma menina fofinha, aí que pesadelo!), o politicamente correto, esse ditador dos novos tempos, sacou mais um golpe, e teremos pausa para as lágrimas: um Jimmy Olsen Negão. E não é a primeira vez, e nem será a última, pois não basta o absurdo de escalarem atores negros para viverem Íris e Joe em Flash, a última esperança dos fanboys era de que Wally West, parente dos dois, fosse branco pois é, por incrível que pareça teve gente surpresa e revoltada ao verem um Wally West Negro A injustiça com os brancos está tomando proporções nunca vistas. Ok, pondo freios no sarcasmo, me diz, o que não falta na mídia é gente branca, então onde que mudar a cor de um personagem branco para negro é injustiça com os brancos? E seus pais sabem que você fica na internet perguntando: é crime ser branco, agora?

Personagem mudar suas características marcantes é chato sim, mas da mesma forma que o padrão vigente branco-caucasiano (lembra que o novo omi-aranha tinha de ser branco?) faz parte de uma postura ideológica, promover mudanças também é questão política. É muito simples: o primeiro exclui (sem que a gente perceba) todas as cores, o segundo quer INCLUIR. Repare que o objetivo não é exterminar os brancos, discrimina-los e sim dar espaço para quem nunca teve visibilidade. E junto disso, de uma representação que seja decente e não vergonhosa como os asiáticos em Daredevil.

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Não tem ninguém contra os pobres brancos, reparem que apesar do ABSURDO de termos um Tocha Humana negro, reparem que é um para três. O Jimmy Olsen é negro, mas a protagonista é loirinha. Na época em que Thor saiu, eu tava com preguiça de filmes de heróis, então só anos depois fiquei sabendo da histeria porque tinha um guardião negro em Asgard. Ainda assim, o resto do elenco era branco. Aliás, reclamar da presença de Idris Elba em qualquer filme deveria ser crime! Cadê a perseguição, eliminação, criminalização dos caucasianos? E ainda que em hipótese, tenhamos um filme com herói negro que deveria ser branco, cê jura que um é o suficiente para apagar anos e anos de protagonistas brancos? É o mesmo pensamento de quem diz que um presidente dos EUA negro é a mesma coisa que o racismo ter acabado, afinal, Obama vs 43 presidentes brancos super equilibra a balança igualitária.

Fiquem calmas crianças brancas! Não queremos ‘apagar’, queremos incluir, AS CUSTAS DE EXCLUIR! Excluir? Um branco a menos não tem o mesmo impacto que um negro a mais. Porque vc tira um, tem outros. Vc põe um negro onde não tinha nenhum, você está somando. E quer saber, tô prolixando, e você sabe disso.

Personagem negro vira branco

Agora, seguindo a última frase, acho que vocês já entenderam essa parte aqui, né? Aliás, basta passarem nesse tumblr e pronto, não é possível ler e continuar achando que visibilidade racial é balela ou que gente branca está sendo injustiçada em prol dos negros. Assumindo que vc ficou com preguiça de seguir o link, vamos lá:

Se eu vou adaptar uma hq, livro, whatever, e tenho 4 personagens de destaque, sendo um negro, se eu escalo um ator branco para representá-lo, mesmo mantendo a personalidade, nome, tudo, eu estou eliminando o pouco que tem. Personagens não-brancos já são raros, BONS papéis para eles, mais ainda, sem contar que ignoramos o valor que o público que se identifica com eles lhes dá. Uma menina negra cresce sabendo que seu cabelo é considerado feio, inadequado, suas bonecas e heroínas têm o mesmo padrão de beleza que não é igual a essa menina. Como falar que a cor não importa (discurso preguiçoso e silenciador) se na prática isso não acontece? Agora imagina essa menininha lendo quadrinhos e vendo uma heroína negra, que é inteligente, forte, ativa? Que se parece com ela? Aí vc leva para a televisão ou cinema e passa o balde branco na personagem e tem a cara de pau de dizer que não importa a cor? Não criaturas, vivemos em um mundo desigual, mundo onde negros e brancos podem correr atrás de oportunidades com a mesma vontade, mas o primeiro grupo terá mais obstáculos, e as conquistas acabam sendo poucas. Sem contar que há muitos artistas negros e negras produzindo muita coisa bacana, mas adivinhem: são ignorados.  Repito: não se tira o pouco que tem. Porque é desse pouco que virão outros e mais outros e mais outros.

Pq não criar personagens originais?

Sim pessoas, também sou do time de se criar mais personagens não-brancos, onde que sou contra? Uma coisa não exclui a outra, vou até repetir: UMA COISA NÃO EXCLUI…(complete o final) e é chato que na hora H de fazer novas coisas, não pensamos em diversificar. Temos que nos cobrar mesmo quanto a isso. E claro, sem estereótipos, receitas prontas e vazias. Dá para fazer. Em histórias totalmente novas isso é moleza, mas o terreno de interesse do post são as adaptações, imagino que os roteiristas quebrem um pouco a cabeça na hora de adicionar cores em histórias branconormativas. Criar novos personagens em histórias que já existem tem o perigo de você criar um personagem bacana, mas não conseguir dar espaço e importância para ele, porém nada como um pouco de criatividade, né?

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Em Arrow temos o querido John Diggle, interpretado pelo meu marido David Ramsey. Foi uma adição muito positiva, o personagem é bem querido e sua vida não gira em torno do herói branco, é mostrada sua família, sua mulher e filhinha. Lá na primeira temporada, quando Arrow dava umas alfinetadas no sistema, Oliver diz para Diggle que com sua nova boate poderia fazer melhorias no bairro pobre e negro, ajudar aquela gente e saca só a resposta de Dig: “já estava esperando por isso, o cavaleiro branco querendo salvar os desprivilegiados, solitário, sem a ajuda de ninguém”. Ak o video sem legendas

É um recado não só para Oliver, mas é também para quem assiste, afinal, descobrimos que Oliver não vai fazer tudo sozinho, ele vai precisar de ajuda (não ajudar) de outras pessoas, principalmente de Diggle. Minha única queixa é aquilo que já falei (prolixa pra caralho!): o personagem fica perdido na trama, às vezes muito perdido mesmo. Uma auto-cutucada que os roteiristas se dão é quando Felicity reclama que não é secretária e Diggle fala: pior eu, que sou o ‘motorista negro’, ❤ .

Outra personagem negra criada originalmente para uma série (muito chique esse lance de criada especialmente, só acho) é Fish Mooney de Gotham. Pena, muita pena mesmo que Jada Pinkett-Smith não retorne, a personagem é maravilhosa, e para os menos antenados, Jada é esposa do Will Smith (ainda, eu acho), mas à medida que o tempo passa, me pergunto se não é o Will que é o marido da Jada, se bem que não é surpresa que a fama dele ajude a abrir portas para sua família, gostemos ou não Jaden Smith tá acontecendo, Willow tava fazendo sucesso batendo cabelo um tempo aí, porém no caso de Jada nem tenho do que reclamar da influência willsmithana. Fish nasceu para ser foda, e enquanto muitos dos personagens de Gotham não se desenvolveram, ela teve destaque, era importante e não uma mera coadjuvante.

Pq mudar personagem estabelecidos não é tão ruim?

Se podemos criar originais, pra quê mexer em heróis já conhecidos, mudar a cor, o sexo, etnia? Simples, tirando a conflitante parte sentimental (saudades-Diana-olhos-azuis), quando uma identidade, uma marca é posta para o público, ainda que modificada, ela atrai mais marketing, muito mais do que um novo herói saído do forno. Mas Guardiões da Galáxia era desconhecido e fez sucesso, o Novo Quarteto flopou Amigos nesse caso é muito simples: o primeiro, os produtores sabiam que ia dar certo, o segundo os produtores sabiam que ia dar errado. Tava meio na cara, não?

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Vc muda a cor, o sexo, a pessoa por trás do colante, mas ainda é o Capitão América, o Tocha, a Thor, a Capitã Marvel. A marca fica, muda o conteúdo digamos assim. É mais rápido atrair a atenção do grande público com esse tipo de estratégia, e bem, tempo é dinheiro. Porque no final das contas, nenhum estúdio ou editora cria heróis e heroínas por caridade, eles querem lucrar, e em tempos de inclusão, de melhor representação para seu público, é uma medida bastante vantajosa para ambos os lados. Vc tem um Homem-Aranha, que é um personagem super popular e tem leitores variados, colocar um Miles Morales á frente é fazer toda uma ligação entre personagem e público. Assim como uma mulher ser digna da Mjölnir. No caso de mudanças não de uma marca toda, mas só da cor como Jimmy Olsen em Supergirl, não vamos negar: é o caminho mais cômodo para diversificar as coisas. Queima-se a etapa de preparar outro fulano para assumir o manto, o personagem é o mesmo, muda apenas a cor. É um recurso barato ou preguiçoso? Pode ser, mas é um passo para frente. Não é o ideal, mas é alguma coisa. Melhor do que nada. Melhor do que deixar para próxima. Se vivêssemos em um mundo mais igualitário, esses recursos chatos não seriam necessários, mas sendo realistas, precisamos deles. Eu espero que não para sempre, mas aí vai depender de todo mundo, de quem cria e quem consome, quem critica, quem prefere fechar os olhos. É aquela lógica: não gosta do feminismo? Então acaba com o machismo que aí não precisaremos mais do feminismo para te encher o saco. Simples. Não podemos é ficar sem fazer nada, ou pior, atrapalhando.

Tem gente que acha racista e ofensivo minorias herdarem antigos mantos, mas eu vejo de uma forma mais metafórica: Capitão América foi criado na década de 40, e ao longo do tempo, o personagem teve que ir se adaptando as novas gerações. Ele passar seu manto para Sam Wilson não é uma caridade, é um símbolo de que os tempos mudaram tanto que o Capitão pode ser negro, algo impensável nos anos 40 . A celebração de quem abraça essas mudanças não pode ser ignorada. Até por que, não dá de jeito nenhum para estagnar modelos e esperar que sejam aceitos só porque personagem tal foi criado em um época diferente. Eles precisam de uma nova roupagem (não apenas de uniforme) justamente para incluir e evitar que preconceitos sejam reforçados.

O verdadeiro racista é aquele que se incomoda com essas coisas

Ou “racista é quem vê racismo em tudo!” Nossa, vocês não sabem o quanto eu gosto desses argumentos (risos do Chaves). Sério, sem ironias, é porque quando alguém fala algo assim eu já sei que nem devo perder o meu tempo e passo direto. Esse é o típico argumento do preguiçoso de pensar, que não basta ter preguiça de problematizar as coisas, ele não quer que ninguém o faça. É aquela pessoa que não percebe como as coisas são e quando alguém lhe aponta algo, se recusa a ver, aprender. Não raro, são pessoas que até pensam algo sobre questões raciais, mas ah… não quer mudar nada, não quer ver seu programa favorito problematizado, não quer correr o risco de ver sua série estragada por gente chata mostrando racismo ou invisibilidade racial. Ou seja, foda-se se série tal tem elenco todo branco, se filme tal tem negros, mas representados cheios de estereótipos, ai que chato, é só uma série, é só quadrinhos, DEIXEM AS COISAS QUE GOSTO EM PAZZZZZZZZ Sempre tem essa galera, que curiosamente me acusa e acusam outras pessoas de serem as chatas do textão, mas só ‘defendem’ a hipótese de que o pior racista é quem vê racismo em tudo quando querem negar que se debata racismo. Lógica, cadê?

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Ou seja, não é que esse tipo de gente se preocupe com representação racial e em um ponto ou outro discorde totalmente, elas apenas não estão nem aí e acham mais vantajoso viver na ignorância. Enquanto isso, as vozes militantes aumentam, e mesmo que preocupações legítimas se misturem com oportunismo marqueteiro e/ou barato, as mudanças estão acontecendo. A verdade é que a galerinha que ri das piadas que reforçam que todo negro é bandido se incomoda demais com a ideia de que negros possam ser heróis. Mas né, apontar isso é chatooo

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